Vamos Problematizar? | Gordofobia e glamorização de transtornos alimentares em Watashi ga Motete Dousunda

[Este texto é uma colaboração da leitora Caroline Gomes].

Nessas últimas semanas, um anime apareceu como recomendado no meu feed do YouTube. Por curiosidade, resolvi ver por achar o traço bonito. Lembro-me de ter assistido o 2º episódio, pois não estava tão interessada assim na história. Porém, foi surpreendente o que eu vi em apenas 20 minutos.

O nome do anime é Watashi ga Motete Dousunda (ou "Kiss Him, Not Me!", em inglês) e de longe parece um típico anime colegial com uma protagonista fujoshi. Serinuma Kae (como se chama) é apaixonada por todos os caras, que magicamente também estão aos seus pés. Porém, em alguns momentos ela acaba por shippar esses colegas entre si porque... *motivos de fujoshi*, hehe.

Mas espere, eu disse magicamente? Existe um motivo por trás desse "crush coletivo" por ela, certo?

A protagonista é uma típica otaku (e fujoshi). Usa cabelos presos e óculos grandes, tem olhos pequenos e está sempre grudada no celular (mais especificamente numa espécie de Twitter) acompanhando os comentários dos fãs que assistem uma série, que também é a sua favorita (e claro, tem rapazes bonitos).

Ah, sim, e ela é gorda.

Enquanto assiste o novo episódio da série, ela fica tão empolgada que acaba quebrando seu celular com a própria mão e aí o seu mundo desaba. A partir desse ponto a coisa começa a ficar esquisita. Ela fica mal (por ter quebrado o celular ou por se sentir culpada por ser gorda e ter quebrado o celular? Essa parte ficou meio no ar...) e se isola como uma hikkikomori no quarto. No entanto, isso não é tudo – ela ainda fica sem comer(!) por 10 (dez) dias.

Passado esse tempo, sua mãe (FINALMENTE) intervém e seu irmão (nada parecido e gordofóbico) resolve arrombar a porta do quarto. Quando puxam seu cobertor, ambos ficam totalmente surpresos. Kae está magra, como se nunca tivesse sido gorda – sem estrias, sem celulites –, apenas mais uma típica garota magra de anime. É claro que ela apenas percebe a diferença quando se vê no espelho do banheiro, e até pensa e diz que só pode ser um novo tipo de espelho, porém logo percebe que sim, ela perdeu (muito) peso.

Kae parece absurdamente normal e saudável. Seu cabelo está arrumado, não quebradiço como acontece com quem se priva de comer. Seu rosto não está com olheiras e não demonstra nenhum cansaço. Então ela vai pra escola. Preciso dizer que o uniforme dela fica perfeito nela? E que os rapazes rapidamente ficam aos seus pés?

Como estudante de Psicologia e quase uma "nativa digital", posso dizer que eu (e não apenas eu, mas muitas pessoas do meu círculo) já vi banalizações de transtornos mentais. É aí que quero chegar, mas dessa vez, saindo da esfera de depressão e "sad boys 1998".

Precisamos falar de transtornos alimentares.

Acredito que esse anime, para uma garota extremamente vulnerável a grupos e comunidades pró-ana e pró-mia (apelidos para/a FAVOR da Anorexia e Bulimia), seja um grande e fortíssimo gatilho que sirva de inspiração para a mesma. Principalmente se ela tiver conhecimento da cultura otaku e assistir de vez em quando algum anime. Ela vai procurar por mais animes, mangás, HQs, séries e filmes do tipo. Logo, não só essa menina, mas várias podem pensar que: para ser amada, devo ser magra.

Não que esse tipo de pensamento não seja comum – muito pelo contrário –,  mas o anime é um reforçador para que elas continuem se matando aos poucos, se vendo como a protagonista gordinha e almejando terem o mesmo destino que a mesma teve após 10 dias MORTAIS de jejum.

Sabemos que animes assim com mudanças rápidas e radicais são fantasiosos e exagerados e não foram feitos para serem levados tão a sério assim. Mas e para as meninas com transtornos alimentares? Ou que estão à beira de os desenvolverem?

Não é apenas um gatilho, mas uma grande glamorização de transtornos alimentares. Não assisti os outros episódios por ter me sentido, no mínimo, enojada pela forma com a qual as pessoas começaram a gostar dela, mostrando um terrível desenvolvimento como personagem. Talvez ela seja uma garota legal e descolada por ser otaku e fujoshi, mesmo com um pouco de vergonha por isso, mas infelizmente Kae é reduzida à magreza.

Essas meninas vão acreditar em imagens distorcidas e tentarem se moldar? Vão acreditar em traços e silhuetas finas?

Pode ter certeza que sim.