IMPRESSÕES FINAIS #07: Temporada de Inverno (2018)

Tudo indica que 2018 será um ótimo ano para os animes. Além dos diversos anúncios que deixaram o público ansioso para os próximos meses (especialmente em relação ao segundo semestre), a temporada de inverno também não deixou a desejar. Tivemos algumas decepções como Darling in the FranXX e Grancrest Senki (ambos droppados, inclusive), mas a qualidade de obras como Gakuen Babysitters, Koi wa Ameagari no You ni, Sora yori mo Tooi Basho, Violet Evergarden e Yuru Camp△ já é o suficiente para colocá-las como candidatas a anime do ano.

De qualquer forma, vamos às resenhas. Fora os títulos escolhidos desta temporada, incluímos também 3-gatsu no Lion 2nd Season e Mahoutsukai no Yome, que estrearam na temporada anterior.

3-gatsu no Lion 2nd Season [Mari]


3-gatsu no Lion é uma obra tão incrível que eu honestamente não sei nem por onde começar. O mangá por si só já é fantástico – foi nomeado ao Manga Taisho Award em 2009 e 2011, levando o primeiro lugar na segunda ocasião; ganhou a categoria geral da 35ª edição do Kodansha Manga Award e ainda venceu o Grande Prêmio da 18ª edição do Tezuka Osamu Cultural Prize em 2014 –, mas o que o SHAFT se mostrou capaz de fazer com esse excelente trabalho da Chika Umino me deixou sem palavras.

A história que já era impactante nas folhas preto e branco do mangá foi trazida à vida pelas mãos dos diretores Shinbou Akiyuki (Bakemonogatari, Sayonara Zetsubou Sensei), que também se responsabilizou pela composição da série, e Okada Kenjirou. Toda a cinematografia envolvida é de tirar o fôlego: cenários maravilhosos, visual storytelling que muitas vezes torna o uso das palavras desnecessário, trilha sonora que se encaixa perfeitamente com cada momento, transmitindo o sentimento dos personagens... Enfim, é uma obra que dá prazer de assistir.

Além de ser atrativo aos olhos, 3-gatsu no Lion é uma mistura incontrolável de emoções. Por vezes você sente como se estivessem te dando um soco na boca do estômago; depois, quando você acha que as coisas só vão piorar, o anime trai suas expectativas e te mostra que há coisas boas mesmo quando a situação é ruim, e aquece seu coração de uma forma que você nem imaginava ser possível. Na minha opinião, uma obra bem escrita é aquela que te faz pensar e, mais do que isso,  sentir coisas; é uma obra que te coloca no lugar dos personagens, que faz você se importar com eles, e que te preenche de satisfação ao final de suas jornadas.

3-gatsu no Lion acerta em diversos pontos, mas principalmente em suas abordagens, que vão desde abandono, depressão e bullying a incertezas sobre o futuro, peso das expectativas que as pessoas colocam sobre você ao longo de sua vida, entre outras questões. Todos eles são assuntos sensíveis e que precisam de tato para abordar – senão a mensagem acaba atrapalhando mais do que ajudando –, mas que felizmente a autora e as pessoas envolvidas na produção do anime mostraram ter. Acompanhar a jornada do Rei e da Hina nessa segunda temporada foi uma experiência absolutamente maravilhosa e eu com certeza gostaria de tê-la aproveitado mais (planejo reassistir aos episódios em uma sentada só quando tiver oportunidade, pois assisti-los semanalmente às vezes faz com que deixemos detalhes passar).

Não sei se teremos uma terceira temporada, porém esta obra-prima certamente merece uma continuação. A S2 conseguiu ser ainda melhor do que a S1, então... Sem sombra de dúvidas, minha nota será:

10/10


Gakuen Babysitters [Mari]


Se fosse possível morrer de fofura vocês podem ter certeza que a essa hora eu já estaria morta e o culpado por isso seria Gakuen Babysitters. Assim como eu disse nas minhas primeiras impressões do anime, não sou muito fã de crianças na vida real, mas não tenho como não cair de amores por elas no 2D. Embora possa haver pequenos demônios entre elas (*cof, cof* Taka *cof, cof*), acompanhar o cotidiano do pessoal do Clube de Babás foi uma experiência extremamente divertida pra mim.

Eu gosto do jeito que cada criança é vista como um indivíduo, que tem sua própria personalidade, coisas que gosta e não gosta, aspirações, medos, enfim... Tudo aquilo que torna cada um de nós especial. Acho que a única coisa que eu tenho a reclamar é em relação a um episódio específico no qual os pais vão visitar o clube e tal, e os dois que têm filhas agem de forma completamente obsessiva e superprotetora. No anime é engraçado porque elas ainda são crianças, mas esse comportamento não pode se perpetuar se eles não quiserem transformar o relacionamento de pai e filha que possuem em algo absurdamente tóxico (falo isso por experiência própria) quando a Kirin e a Midori forem mais velhas.

Além disso, quero elogiar o trabalho da Kakihara Yuuko, responsável pela composição da série, que vem se mostrando uma excelente roteirista de slices of life; e dos dubladores, que conseguiram capturar perfeitamente a personalidade das crianças. Acho que dificilmente teremos uma segunda temporada, mas se rolar... I'm all for it.

9.0/10


Hakata Tonkotsu Ramens [Mari]


Hakata Tonkotsu Ramens é uma obra da qual eu acabei gostando mais do que eu esperava, ainda que não haja nada de muito especial em relação a ela. Sabe aquele tipo de anime que você não recomendaria com entusiasmo a menos que a pessoa te pedisse algo exatamente nesse estilo, mas que ainda assim te divertiu bastante enquanto durou? Então, foi dessa forma que eu me senti.

Entre os pontos positivos, eu gostaria de destacar o elenco de personagens, que é bem diverso, e todos exercem algum tipo de papel na história (embora o nível de relevância varie). Acredito que a escolha dos seiyuus ajudou bastante nesse aspecto. Também gostei do modo com o qual o anime tratou o Lin, um crossdresser, sem transformá-lo em piada de mau gosto ou escancarar preconceitos (o que era um dos meus medos). E, conforme mencionei nas minhas primeiras impressões, a trilha sonora também merece ser lembrada.

Entre os pontos negativos, por mais que às vezes até fosse engraçado, eu penso que as comparações e a própria inserção do beisebol em alguns episódios não funcionou bem com o estilo da obra. Além disso, senti falta de personagens femininas importantes ao enredo, pois até as que apareceram foram mortas ou tomaram um chá de sumiço em algum momento do anime. Por fim, a parte técnica é aquilo que falei no início: apenas OK, mas não tenho reclamações a fazer.

7.5/10


Kokkoku [Ana]


Kokkoku definitivamente não é uma obra que eu recomendaria, mas também não a considero uma perda de tempo. Dividindo opiniões entre mediana e ruim, eu ainda procuro entender que tipo de mensagem o autor quis passar. Partindo de um estúdio novo, com um diretor um tanto inexperiente (por mais que ele tenha trabalhado em outras funções em obras que considero boas) e um roteirista com menos experiência ainda, era de esperar que não sairia algo muito sólido daqui.

O ritmo de desenvolvimento do anime é lento e a estética em si não é das melhores (o que fazia com que certas cenas fossem um tanto perturbadoras), mas no fim acabou combinando com a atmosfera do anime. Os personagens não conseguiram ser carismáticos (a ponto de eu não me importar com a maioria deles), com ressalvas como a Shouko Majima, que se mostrou interessante no decorrer da adaptação; os personagens principais possuíam superpoderes - Juri, a verdadeira protagonista da história - podia usar o dela sem limite ou consequência pessoal, isto é, até ter que enfrentar a solidão em um mundo onde todos estavam parados no tempo menos ela.

Embora Juri estivesse à beira da loucura, o problema central - estarem parados no tempo - foi resolvido de uma hora pra outra no final. No fundo, tudo não passou de uma luta entre os “bons” e os “maus” pelo poder, naquele mundo em que o tempo está parado sem explicações muito claras dos elementos únicos a ele.

Apesar de tudo, acompanhar a obra semanalmente foi uma experiência interessante para tentar entender como as bizarrices do anime funcionavam e ver como as coisas seriam solucionadas. Sem contar que é diferente ter um anime em que uma protagonista mulher toma as rédeas da situação, enquanto a maioria dos homens é deplorável.

7.0/10


Mahoutsukai no Yome [Ana]


Mahoutsukai no Yome foi um anime que chamou muito minha atenção desde o início. Toda a atmosfera pesada misturada aos elementos de fantasia foi algo que me agradou muito e talvez esse seja o ponto forte da obra: saber contrabalancear o pesado com belos momentos de leveza. Pra quem assistiu aos OVAs que precedem a história do anime pode sentir que não chega a ser tão pesado quanto, porém isso não é algo ruim, são apenas abordagens diferentes.

Logo no início, Chise, a protagonista, uma garota de 15 anos, se oferece para ser leiloada. Para ela ter chegado a esse ponto é de se imaginar o quão terrível sua vida era. Quem a compra é Elias, um mago, claramente mais velho e que não chega nem a ser humano, para que ela seja sua aprendiz e... sua noiva. A partir daí já dá pra imaginar que a situação poderia se tornar totalmente problemática, mas o anime soube transmitir com muita delicadeza esse relacionamento, sendo bem sutil e nem um pouco forçado.

Ao longo da história pudemos acompanhar a jornada da Chise por essa sua nova vida e como conhecer pessoas e fazer amizades era importante pra ela e o fato de ser útil e poder ajudar os outros mesmo que isso lhe acarretasse consequências não muito boas, lhe dava esperança pra viver. A garota, às vezes por teimosia, outras por necessidade, se impôs sobre as vontades de Elias sobre ela, passando por cima de sua superproteção e ciúmes, e mostrando que existem perigos, mas não apenas a vida dela importa como a dos outros também.

Durante todos os conflitos fiquei preocupada, emocionada e acabei com meu coração aquecido. Além disso, toda a história foi acompanhada de cenários, trilha sonora e animação fantásticos. Poucas coisas me incomodaram durante a obra, então é algo que eu fortemente recomendaria.

9.0/10



Sora yori mo Tooi Basho [Mari]


[Insira aqui o meme do "não sei o que dizer, só sentir"]. Sora yori mo Tooi Basho é o melhor anime da temporada de inverno e certamente estará no topo da minha lista de melhores animes do ano também. Eu já esperava coisas boas de uma obra que estava nas mãos de Ishizuka Atsuko (diretora de No Game No Life e Sakurasou no Pet na Kanojo) e Hanada Jukki (roteirista de Hibike! Euphonium, Nichijou, Steins;Gate, entre outros), mas o que eles foram capazes de fazer superou completamente minhas expectativas.

Em uma entrevista recente, Ishizuka Atsuko comentou que enquanto trabalhava em No Game No Life, ela só falava sobre como sua próxima aventura seria um anime estrelando colegiais dando o melhor de si. Entretanto, o problema era que histórias sobre colegiais surgiam o tempo todo e ela queria fazer algo diferente: "Se vamos fazer isso, então por que não focamos em um lugar onde nunca fomos antes? [...] E que lugar nunca fomos antes? À Antártica? (risos)". E foi assim que se formou o embrião de Sora yori mo Tooi Basho. A produção envolveu pesquisas extensas sobre como é a vida durante uma expedição na Antártica, todo o processo necessário para chegar até lá, entre outras dificuldades que, no fim das contas, valeram a pena.

O resultado de tudo isso foi o que acompanhamos nos últimos três meses: uma história absolutamente rica, com personagens bem escritos, interações críveis, visuais maravilhosos e uma mensagem incrivelmente inspiradora. Não houve um único episódio que eu não me peguei assistindo com um sorriso idiota na cara porque honestamente é assim que esse anime me faz sentir. Além de todos os pontos positivos que citei, o fato de Sora yori mo Tooi Basho ser dirigido por uma mulher, apresentar um brilhante protagonismo feminino e ainda no subtexto trazer um casal lésbico canon era tudo que eu procurava e precisava nessa mídia que tanto gosto. Em um episódio específico que eu assisti no intervalo da faculdade, eu até mesmo chorei (o que é um evento tão raro que minha amiga até tirou fotos pra me zoar depois) de tão emocionada que fiquei.

Ainda que obras perfeitas não existam, vocês podem ter certeza que, a meu ver, Sora yori mo Tooi Basho é o mais próximo que temos disso. É uma pena que o anime seja tão subestimado, mas espero pelo menos ter convencido alguns de vocês a assisti-lo. Prometo que não vão se arrepender.

10/10


Violet Evergarden [Ana]


Ah, Violet Evergarden, você quase me decepcionou, mas eu sou dessas pessoas que se emocionam facilmente e também ficam impressionadas com a beleza de uma produção nesse nível, então talvez eu tenha mordido a isca do estúdio. Eu havia tido uma boa impressão no primeiro episódio, e não digo que os seguintes foram ruins, mas o anime segue num ritmo lento e faz parecer que seu forte ficaria apenas em uma animação bonita e nada mais. Embora tenham inserido personagens e histórias interessantes inicialmente, como a de Luculia, foi no seu meio que eu realmente consegui sentir a que o anime tinha vindo. 

Violet é uma personagem perfeita em sua aparência e habilidades, ao mesmo tempo que traz suas perdas físicas e emocionais, e principalmente conflitos internos a serem resolvidos. Assim, o anime busca, por meio da vivência de outras pessoas, fazer com que Violet supere esses conflitos. Não tive como não me emocionar com tantas histórias sofridas, pessoas que perderam seus filhos, pais, pessoas amadas, devido à guerra ou doenças e a única maneira encontrada para superar as perdas foi a de usufruir do trabalho de Violet como "Auto Memory Doll" como uma despedida, uma maneira de se expressar ou simplesmente recordar as pessoas amadas. Assim, em meio aos seus trabalhos, aos poucos, ao entender o sentimento dos outros, Violet passou a entender os próprios.

Foi interessante ver o seu amadurecimento com passar dos episódios, e como sua escrita evoluiu e passou a ser grandemente reconhecida, embora eu tenha achado que esse ponto ocorreu de uma maneira um tanto abrupta. E ainda no final, quando finalmente reconhece não ser mais uma ferramenta que só cumpre ordens – descartada pelo irmão do major Gilbert, mas não por ele, que nunca a viu dessa forma e realmente a amou –, ela entende o que o amor significa e segue em frente mesmo com suas perdas.

No decorrer tivemos alguns pontos fracos, acho que a direção falhou, tendo alguns episódios não tão bons, uma mistura entre ser um anime episódico, mas ao mesmo tempo buscar mostrar o desenvolvimento da personagem principal. A intensidade do drama também varia entre episódios mais sutis, a outros mais dramáticos. Eu particularmente gostei dos episódios mais dramáticos, embora algumas pessoas tenham achado exagerados. Eu entendo que esse tipo de coisa não funciona com todo mundo, no entanto, me pergunto o que esperavam do anime já que aparentemente essa era a premissa. Acho que o problema foi que muita expectativa foi depositada, devido à grandeza da qualidade da animação – que realmente não tem do que reclamar –, fazendo com que a KyoAni se preocupasse mais com esse aspecto do que com uma boa narrativa.

Os últimos episódios ficaram um tanto esquisitos, já que trazem novamente uma ambientação de guerra do nada, ficando um pouco fora de contexto. E as realizações de Violet sobre seus sentimentos soam um tanto repetitivas. Ainda jogam até umas dúvidas se o major estaria mesmo morto, o que se não fosse verdade levaria todo o desenvolvimento de superação por parte da Violet por água abaixo. Mas aquela surpresa ao abrir a porta na última cena é um tanto suspeita.

Na minha opinião, Violet Evergarden foi algo que eu gostei bastante de acompanhar, mesmo com as ressalvas citadas. Eu recomendaria avisando que talvez a maneira com que o anime foi desenvolvido não funcione com todo mundo, mas ainda assim é uma interessante história sobre autoconhecimento.

8.0/10