Review | Okane ga Nai: quando o estupro é representado como ato de amor

[Este texto é uma contribuição da leitora Atenéia Araújo]

Se você assistiu ao especial de quatro capítulos (OVA) do anime yaoi Okane ga Nai, é possível que tenha ficado curioso para ler o mangá, que ainda não foi finalizado. Porém, será bom que não o faça, pois a história, que já é bem pesada na versão animada, é ainda pior nos quadrinhos, fazendo com que nos perguntemos como tanta gente torce por um final feliz entre o seme (ativo) e o uke (passivo).

Kanou, o ativo da relação, é um agiota da yakuza, enquanto Ayase, o passivo, é apenas um jovem bonito de 18 anos, delicado e com feições femininas. As pessoas não parecem se dar conta de que o relacionamento dos dois é algo doentio e abusivo até o limite, em que um inocente estudante universitário se vê forçado a vender seu corpo a um membro implacável e possessivo da yakuza – o que afeta sua vida e seus sentimentos em todos os sentidos.

Okane ga Nai


Gêneros: Drama, Romance
Nº de Episódios: 4
Duração: 30 min.
Estúdio: Lilix (Holy Knight, 25-sai no Joshikousei)
Material: Mangá
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Ano de lançamento: 2007
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No anime, Kanou já se revela bem abusivo: ele sente raiva por Ayase não se lembrar da primeira vez em que os dois se encontraram – anos atrás , como se o menino tivesse obrigação de lembrar de alguém que ele viu apenas uma vez. Não sabemos muito sobre esse encontro de ambos – apenas que Kanou estava ferido e jogado na sarjeta numa noite chuvosa quando Ayase, então ainda uma criança de 15 anos, resolveu ajudá-lo. O que houve? Não fica claro, embora se perceba que não foi nada marcante para Ayase que, com sua natureza bondosa, teria ajudado qualquer outra pessoa na mesma condição. No entanto, a partir daí, Kanou não esqueceu o jovem. Para um agiota da yakuza deve ter sido muito tocante um gesto de bondade desinteressada. A falta de memória do jovem ofende Kanou, e o primeiro contato entre ambos termina em um violento estupro do qual Ayase não pode se defender pois é pequeno demais em comparação ao Kanou.

Mais tarde, Kanou se arrepende de seu ato brutal, mas ainda assim ele continua a estuprar o jovem em outras ocasiões, além de  privá-lo de sua liberdade, manipular seus sentimentos  e obrigá-lo a vender seu corpo por 500 mil ienes a cada sessão de sexo até que ele pague a quantia que Kanou pagou por ele no leilão onde ele estava sendo oferecido como escravo sexual. No mangá, por sinal, Kanou é ainda pior, revelando-se um ser simplesmente abominável e abusivo em todos os sentidos, aterrorizando Ayase psicologicamente. A gente tem a impressão de que o menino enlouqueceria com o tempo. No mangá, o pobre menino morre de medo de fazer algo que Kanou desaprove, pois o seme gigantesco não hesitará em puni-lo, usando o estupro como forma de mostrar que o uke lhe pertence (e as expressões de Ayase mostram que a experiência não é agradável).

As ilustrações de capa dos volumes do mangá passam bastante a ideia de uma relação entre dominante e dominado. Ayase sempre aparece acorrentado ou algemado, com um olhar triste e assustado de animalzinho indefeso, enquanto Kanou o agarra de forma possessiva com suas mãos enormes (traço bastante evidenciado no anime e no mangá), percorrendo o corpo franzino e pequeno do uke de maneira lasciva.

É triste ver um jovem gentil, tímido, inseguro e ingênuo – que levava uma vida normal como estudante universitário até ter o azar de ser traído pelo primo endividado com um cassino da yakuza e acabar leiloado como escravo sexual – ao lado de um homem violento, implacável e cruel, que, sendo um agiota da yakuza, não perdoa os devedores, não confia em ninguém, não tem amigos, usa as pessoas para alcançar os seus objetivos e mata sem piedade. Nem mesmo Ayase, a quem ele diz amar, escapa de sofrer com sua forma fria e violenta de agir. Porém, tanto o mangá quanto o anime  transmitem uma ideia errada do que seja o amor, fazendo parecer que Kanou estupra Ayase e o força a vender o corpo porque o ama, pois ele só não sabe demonstrar seus sentimentos e, devido a isso, mete os pés pelas mãos.

Outro problema presente na história é o fato de Ayase ser apresentado como uma donzela em perigo, tanto no anime quanto no mangá, sempre tendo de ser protegido por Kanou. Tudo bem que ele seja ingênuo e tenha uma estrutura emocional frágil, afinal, ele perdeu a família precocemente e tem apenas 18 anos, mas como ele próprio disse a Kanou no primeiro episódio, ele ficou órfão cedo e tem vivido sozinho há um bom tempo – ou seja, alguém que foi obrigado a viver sozinho antes dos 20 não pode ser tão inepto a viver, tão sem noção de perigo como o mangá mostra de forma tão repetitiva que chega a cansar.

Além disso, a história apresenta uma visão errada da homossexualidade. A perversão de Kanou e de outros homens que costumam aparecer querendo estuprar Ayase – o menino parece ter como destino ser sempre abusado – insinua que todo homossexual é pervertido. E sabemos bem que isso não é verdade. Os roteiristas também dão a entender que a culpa é de Ayase por ser tão bonito e incapaz de perceber a maldade alheia. Numa cena do anime, Ayase está sorrindo inocentemente e Kanou se afasta porque senão não resistirá a possui-lo. O que fica subentendido? Que qualquer menino bonito demais, com feições delicadas e angelicais de moça, transformará qualquer homem num homossexual pervertido.

Ayase vive correndo perigo de ser estuprado e Kanou sempre o salva de quem o sequestra para estuprá-lo – o que soa verdadeiramente irônico, como uma tentativa de mostrar que Kanou é o herói que sempre protegerá o uke inocente e indefeso quando ele próprio vive submetendo o jovem a seus caprichos e luxúria. Em outras palavras, ele não é muito melhor do que as pessoas de quem o salva. E essa figura da donzela em perigo já não fica bem nem mesmo nos relacionamentos heterossexuais. Também vale salientar que antes, quando vivia sozinho, Ayase não tinha quem o protegesse e parecia não passar por esses perigos. Soa mesmo como uma tentativa dos roteiristas de mostrar que o seme brutal, no fundo, é capaz de qualquer coisa por amor, principalmente arriscar sua vida para salvar seu amado.

Não dá para simpatizar com Kanou, nem mesmo quando ele trata Ayase com ternura, pois ele alterna momentos em que é carinhoso e protetor com outros em que é possessivo e brutal, manipulando com crueldade um jovem emocionalmente frágil, como na cena do anime em que pergunta a Ayase se ambos não podem ser uma família, sabendo que o menino sente falta de ter alguém a quem chamar de família (para depois forçar uma relação sexual), e chantageando-o em muitas ocasiões, além de ser excessivamente ciumento, não querendo que Ayase frequente a universidade, tenha amigos ou saia. E o jovem, em diversos momentos, mostra-se confuso e atordoado. O que é para alguém se ver obrigado a fazer algo que vai contra os valores com que foi criado? Vender o corpo lhe parece algo totalmente indigno e sujo, fazendo-o se perguntar se não se tornou uma espécie de prostituto. Ele também sente que todo o seu mundo está ruindo e que ele está perdendo a noção de quem é, pois seu corpo, senso comum, coração e vida foram irremediavelmente afetados pela mudança brusca em sua vida, dizendo que, pelas mãos de Kanou, tudo está se ruindo.

É óbvio que Ayase tem sentimentos por Kanou, embora ele próprio não saiba defini-los. Ele sempre o defende e diz que Kanou é gentil com ele, mostrando que é apenas uma pobre vítima da Síndrome de Estocolmo. É bem provável que sua estrutura emocional, que já era vulnerável, tenha ficado mais fragilizada depois de se ver obrigado a viver uma vida de servidão sexual com o agiota, afetando seu discernimento. E as personalidades de ambos são distintas demais para que não haja um impacto emocional violento. Kanou, talvez sem querer, obrigou Ayase a viver no mundo violento e desonesto da yakuza, e o jovem, mesmo sendo ingênuo, sabe que o agiota é cruel e impiedoso e vive de forma ilícita e antiética. Infelizmente, nem o anime nem o mangá exploraram bem esse aspecto de como se ver forçado a viver no ambiente perigoso da yakuza afetou a psique de Ayase.

Portanto, se alguém assistiu ao especial, recomendo que não leia o mangá. É melhor não se aprofundar nessa história que romantiza relacionamentos abusivos, dá a impressão de que todo menino com cara de menina transformará um homem em homossexual pervertido e que estupro é ato de amor. Certas histórias transmitem uma ideia muito errada de como se constrói um relacionamento.