Vamos Problematizar? | Os espinhos do fandom de BL

Não é novidade que muitos fãs homens de anime e mangá declaram as fãs de Yaoi/BL como as destruidoras da indústria como conhecemos. Sabemos também que isso é um monte de besteira sem fundamento. Mas essas ameaçadoras meninas que gostam de ver garotos namorando não são santas e andar entre elas pode ser espinhoso. Vamos conversar sobre o comportamento tóxico desse fandom?

Boys Love (BL), também conhecido como Yaoi no Japão, se trata de um gênero narrativo com relacionamentos entre dois homens. É comum utilizar o termo para definir produções asiáticas como mangás, manhwas, manhuas, animes, doramas, entre outras. Popular tanto no Oriente como no Ocidente, o BL arrasta multidões - as fãs costumam mostrar sua força em números de vendas (quadrinhos, Blu-Rays e outros produtos), tanto que chegam a possuir plataformas especializadas em BL, como a coreana Lezhin Comics, que tem uma seção do site inteiramente dedicada ao gênero (coisa que nenhum outro tem), e cuja obra mais vendida no momento é Killing Stalking.

Killing Stalking
Por se tratar de um fandom tão grande e antigo, os discursos problemáticos não são poucos ou desconhecidos pelo próprio público. De fato, há muitas coisas ruins (relacionamentos abusivos, romantização de estupro, pedofilia, entre outras questões) e que não são discutidas com frequência. Em contrapartida, com a nova onda do feminismo, graças às redes sociais, uma parte das fãs já se mostra um pouco mais consciente em relação a esses problemas. Embora essa mudança de pensamento seja recente, a disposição de parte do fandom é um passo positivo. Por outro lado, nem tudo são flores, e é por esta razão que vim até aqui redigir este texto.

Existe um assunto que pouco se debate no fandom de BL, mas que está presente em absolutamente todos os fandoms grandes (principalmente de animes de esporte como Free!, Kuroko no Basket, Yuri!!! on Ice, entre outros): a misoginia. Por definição, misoginia se trata do ódio ou aversão às mulheres, e é curioso que algo desse tipo seja tão recorrente em um fandom formado majoritariamente por mulheres. Portanto, o objetivo desta postagem é mostrar de que forma a misoginia se manifesta no fandom de BL e o que podemos fazer para acabar com isso.

FETICHIZAÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE E LESBOFOBIA


Neste primeiro tópico, vamos discutir sobre duas questões que não estão intrinsecamente ligadas, mas que costumam aparecer juntas: a fetichização da homossexualidade e a lesbofobia. Historicamente, sabemos que o BL surgiu no caldeirão de experimentações dentro do shoujo mangá na década de 70. O BL é, na maioria esmagadora das vezes, produzido por mulheres para o entretenimento de outras mulheres. Uma justificativa comum para o surgimento do gênero é que um relacionamento entre dois homens seria visto como “ideal” e não preso pelos grilhões do gênero impostos pela sociedade, ao contrário de um relacionamento heterossexual.

Em outras palavras, mulheres heterossexuais criam histórias para satisfazer os fetiches de outras mulheres heterossexuais, não dando importância ao modo com o qual os homossexuais serão representados. Percebe-se o desconhecimento da realidade (e muitas vezes do próprio corpo masculino) sobretudo através da heteronormatividade imposta sobre as relações criadas, em que geralmente há um macho alfa (seme) e um afeminado (uke), ou seja, quem seria o "homem" e a "mulher" da relação. Muitas dessas histórias são regadas de estereótipos e frequentemente dão brecha para discursos cabulosos, que romantizam abuso e estupro. Não é incomum ouvir garotas comentaram como "tal uke é tão estuprável" e coisas do gênero, por exemplo.

O próprio nome voltado para as fãs do gênero – fujoshi – parece refletir a atitude negativa. A palavra vem de um trocadilho com o termo "mulher culta", que também é lido da mesma forma, mas que na verdade pode significar "mulher podre". 

O sucesso de obras problemáticas como Junjou Romantica (que chegou a receber três temporadas) mostra que o público majoritário não parece estar preocupado com o conteúdo que tais obras oferecem - não interessa se há uma péssima representação de homens gays ou romantização de abuso ou estupro -, pois desde que seja possível ver dois homens se pegando, está tudo bem. A fetichização da homossexualidade vende e é por isso que obras desse tipo continuam a ser produzidas.

Aliás, a indústria de animes BL parece gostar de bater na mesma tecla. Enquanto os animes voltados para fujoshis multiplicaram nos últimos anos, as animações adaptadas de obras BL seguem o mesmo estilo e fórmulas há quase dez anos (com exceção do formidável Doukyuusei). Hitorijime My Hero, que está saindo agora em 2017 no Japão, não aparenta estar muito longe de um anime de 2008. Não é de espantar que, nesse contexto, Yuri!!! On Ice queira fugir da classificação "BL".

E onde fica a lesbofobia nessa história?

Bem, acredito que eu não precise apontar o óbvio, mas mulheres heterossexuais não estão interessadas em ver duas garotas juntas. A lesbofobia começa quando não se repreende discursos como "ver dois caras juntos é maravilhoso, mas duas garotas é nojento" ou "sexo lésbico não tem graça; parece que está sempre faltando alguma coisa" (falocentrismo), entre outros. Esse tipo de discurso é mais comum do que eu gostaria de imaginar, e ele possui uma implicação muito séria: só porque uma pessoa gosta de BL não significa que ela apoie a comunidade LGBT, assim como caras que assistem pornô lésbico e rejeitam gays também não. Trata-se de fetichismo, apenas.

A triste ironia é que dentro do público fã de BL, existem pessoas de todos os gêneros e sexualidades. Muitas pessoas tomaram a experimentação proposta pelo BL e o Yuri nos anos 70 como objetivo para si e precisam conviver no mesmo ambiente onde essas ideias são rejeitadas ou transformadas em fetiche. 

Uma imagem vale mais do que mil palavras, certo?

Leituras complementares:



ÓDIO IRRACIONAL A PERSONAGENS FEMININAS


Esse problema costuma ser mais recorrente em obras que não são classificadas como BL, mas que possuem uma parcela significativa de personagens masculinos, como animes de esporte e adaptações de otome games. Para uma personagem feminina ser odiada não precisa fazer muito, basta respirar ao lado de dois personagens masculinos que as fujoshis consideram como um casal (ship).

Lembra quando mencionei que um casal entre dois homens é visto como "ideal" pelas fãs? Então, uma interpretação delas é que seria impossível retratar um relacionamento com uma personagem feminina sem se remeter a todas as regras impostas pelo seu gênero. Como escrever um romance com uma mulher sem ser assombrada pelo fantasma de "casamento e filhos"? É muito melhor se livrar delas e ficar somente com os homens. O ódio às personagens femininas pelas fãs de BL acaba sendo um ódio a tudo que elas lembram – que no fim elas vão casar com os protagonistas e serão condenadas a uma vida sem graça como donas de casa –, um ódio a própria condição feminina.

Não que isso justifique esse comportamento.

Chamo isso de "ódio irracional" para dar ênfase ao fato de que normalmente os casais nem são canonizados e, mesmo que fossem, todos deveriam ter o direito de shippar (torcer para que personagens x e y fiquem juntos) quem quisessem e de serem respeitados por isso. Você pode torcer para que fulano e ciclano fiquem juntos, mas para isso não precisa xingar a personagem feminina mais próxima deles de puta, vagabunda, piranha e afins.

Como alguém poderia odiar essa preciosidade?
Notavelmente, o fandom de Free! é o mais misógino que eu tive o desprazer de "participar" (na verdade só ficava lendo discussões) nesse sentido. A Gou é odiada por qualquer interação que tenha com os rapazes porque "ela atrapalha os ships". Falar que você shippa a Gou com qualquer um dos personagens principais é pedir para dar início a uma ship war. As pessoas não respeitam nem umas as outras, imaginem as personagens femininas. Vemos o mesmo fenômeno acontecer em Kuroko no Basket (Kuroko/Momoi, Kuroko/Kagami, por exemplo) e até mesmo em Yuri!!! on Ice (no início, quando havia a possibilidade do Yuri gostar de uma garota).

Clássico. Clique na imagem para ampliá-la.

Outro tipo de ódio com personagens femininas é o que ocorre com a Haruka de Uta no Prince-sama, por exemplo. Embora eu particularmente não seja fã da personagem, é bizarra a forma com a qual ela é desprezada pelo fandom por ser "inútil". Quantas vezes vocês já ouviram falar que tal personagem feminina é inútil? O mais bizarro é que protagonistas de otome games costumam ser uma representante para a audiência se projetar nelas. Esse desprezo diz muito. Eu consigo pensar em vários exemplos, inclusive fora do BL. Em suma, é isso: ou a personagem é odiada por ~atrapalhar o ship~ ou ela é taxada como "inútil" e "descartável".

SILENCIAMENTO DE HOMENS GAYS


(Esse tópico não tem a ver com misoginia, mas por estar diretamente ligado à representatividade da comunidade LGBT, decidi acrescentá-lo à discussão).

Ainda que, no início, o BL pudesse ser uma forma das mangakás mulheres se expressarem, o gênero passou por mudanças ao longo dos anos. Hoje em dia já se encontram histórias em que as autoras procuram fazer uma boa representação de relacionamentos homoafetivos. Também há o Gay Manga, conhecido erroneamente como bara, criado por homens gays. Entretanto, conforme discutimos antes, o gênero ainda apresenta muitos problemas e nós não somos as únicas a apontá-los.

Frequentemente vejo homens gays que gostariam de se ver representados no conteúdo que consomem (pois representatividade importa) reclamarem de determinados estereótipos e retratações nocivas que as autoras insistem em utilizar (ou até mesmo de se sentirem desconfortáveis no fandom por motivos já citados aqui), serem silenciados ao tentar levantar um debate sobre essas questões. Esses homens são atacados pelas fujoshis e o discurso é sempre o mesmo: "se não tá gostando, cai fora". Talvez seja por isso que criaram o Gay Manga? Bem, não sei, mas abaixo segue uma ilustração do que me refiro:

Clique na imagem para ampliá-la

O QUE PODEMOS FAZER PARA TORNAR O FANDOM UM LUGAR MELHOR?


Primeiramente, quero deixar claro que o meu objetivo com esta postagem não é promover uma caça às bruxas. Não adianta nada sairmos por aí apontando dedo para todos os lados sempre que virmos um comentário problemático porque isso não vai resolver o problema estrutural do fandom. Não estou preocupada em "lacrar", mas sim em desconstruir. 

O fato é que vivemos em uma sociedade extremamente machista e LGBTfóbica e, por essa razão, estamos fadados a reproduzir preconceitos. A única forma de superarmos tais condições é através de boas leituras, discussões e críticas construtivas. Portanto, para tornar o fandom de BL um lugar melhor, sugiro as seguintes alternativas:

1) Quando se deparar com um discurso problemático, procure conversar com a pessoa;
Não ataque. Procure ter uma conversa sincera com ela e explique por que tal atitude ou comportamento é tóxico para outras pessoas. Se não tiver tempo para fazer isso, indique leituras ou obras que possam ser úteis para o entendimento da pessoa. Eu sei que haverá aqueles com quem não valerá a pena conversar, então só nos resta ignorá-los. Entretanto, ao atacar qualquer pessoa que reproduza um discurso problemático, contribui-se para a criação de "inimigos" e não "aliados" à causa que defendemos. 

2) Procure valorizar as personagens femininas das obras que você gosta;
Mulheres já costumam ser mal representadas de modo geral nos animes e mangás. Por que desvalorizar ainda mais as personagens femininas que temos (e ainda por causa de um ódio irracional)? Faça fanarts, fanfics, imagine como é o ponto de vista delas, desperte discussões, lembre que elas existem.

3) Respeite o lugar de fala.
Quando um homem gay decidir falar sobre a representatividade de homens gays nos animes e mangás, ouça o que ele tem a dizer. Aprendemos muito a partir do compartilhamento de vivências e experiências.

Todos concordamos que o amor é lindo, então que tal transformarmos o fandom em um lugar apropriado para recebê-lo?

Agradeço à @dopocoke pela revisão e conselhos.