Vamos Problematizar? | Abuso sexual entre pessoas do mesmo gênero ainda é abuso sexual!

Eu me sinto meio estúpida ao ter que apontar o óbvio, mas algumas pessoas não parecem conseguir entender que abuso sexual entre pessoas do mesmo gênero continua sendo abuso sexual. Digo isso, pois o que me motivou a escrever esta postagem foi a estreia do anime yuri da temporada: Netsuzou Trap

De forma resumida, Netsuzou Trap conta a história de duas personagens (Hotaru e Yuma) que são amigas de infância e se pegam, embora ambas namorem com caras diferentes. A proposta em si já não é das melhores, como vocês podem ver, pois se trata de um netorare (NTR), gênero de mangás no qual a principal temática é a infidelidade. Ainda assim, obras desse gênero costumam trazer discussões interessantes ao explorarem o lado mais podre do ser humano (como Kuzu no Honkai, por exemplo), então não julgo quem goste. O meu problema com Netsuzou Trap não tem nada a ver com infidelidade, mas sim com abuso sexual e fetichização de relacionamentos entre duas garotas.

Conforme Aaron Megulick apontou em seu texto sobre o primeiro episódio de Netsuzou Trap, a obra poderia ter um desenvolvimento interessante se decidisse abordar a questão de explorar e compreender a própria sexualidade ao mesmo tempo em que se lida com a pressão social imposta sobre as garotas de que elas precisam arrumar um namorado a partir do momento que atingem certa idade. Entretanto, qualquer objetivo que a Kodama Naoko, autora de Netsuzou Trap, possa ter tido, é completamente destruído pelo constante abuso sexual que ocorre em todo o decorrer da obra. 

Apenas no primeiro capítulo do mangá (que equivale episódio de estreia): 1) Hotaru passa a mão nas coxas da Yuma e toca suas partes íntimas contra a vontade da garota (que logo na cena seguinte questiona Hotaru sobre isso); 2) Hotaru tranca Yuma no banheiro e a beija à força (enquanto Yuma segue pedindo para que ela pare); e 3) Hotaru beija Yuma à força mais uma vez enquanto as duas conversavam na varanda do edifício que moram (Yuma claramente brava por causa das coisas que Hotaru fizera com ela). Todas essas cenas incluem algum tipo de assédio/abuso sexual, e a Hotaru não para por aí - em absolutamente toda oportunidade que ela tem de abusar sexualmente da Yuma, ela o faz. No entanto, ninguém parece se importar com isso, afinal, são duas garotas, certo? 

Existe essa crença de que abuso sexual só ocorre entre homens e mulheres, mas isso não é verdade. Não sei até que ponto se trata de inocência ou fetichização. Contudo, não deixo de ficar assustada com a quantidade de pessoas que diz amar uma obra que faz uso do abuso sexual de forma constante com o único objetivo de mostrar garotas se pegando (porque é isso que o público quer ver). Similarmente, tive o mesmo problema com Kuzu no Honkai, onde a Ecchan tocou a Hanabi sem consentimento na biblioteca e essa ação não gerou absolutamente nenhuma consequência - uma das críticas que fiz em relação à obra em minha review. Entretanto, no caso de Kuzu no Honkai, toque não consensual foi apenas um, pelo que me lembro, ao contrário de Netsuzou Trap que usa o assédio/abuso como recurso narrativo.

Aliás, a Kodama Naoko é uma mangaká extremamente problemática, se me permitem dizer. Netsuzou Trap não é a única obra dela com problemas desse tipo (e ainda nem mencionei que a autora vê o relacionamento entre duas garotas como "treinamento" para quando elas forem ficar com garotos, pois é assim que se inicia o envolvimento sexual de Hotaru e Yuma). Em A World Without Freedom, por exemplo, uma das personagens principais é abusada e estuprada pela outra ao longo da história, para no final simplesmente se apaixonar por ela. É a epítome da romantização de abuso e estupro! 

Tendo dito isso, porém, meu objetivo com essa postagem não é destruir uma única obra ou mangaká. O fato é que o abuso sexual romantizado ou não levado a sério é uma coisa recorrente no gênero (Strawberry Panic!, Kannazuki no Miko...), ainda que não seja exclusivo dele (pois em yaoi também tem aos montes, como Junjou Romantica, Okane ga Nai, entre outros), e quem cria essas histórias não parece entender o conceito de consentimento. Portanto, cabe a nós, leitores, discutirmos sobre essa questão. Está na hora de acabarmos com essa crença de que mulheres não podem abusar sexualmente de outras mulheres ou que homens não podem abusar sexualmente de outros homens.