Tradução | A posição inferior das mulheres na sociedade japonesa é refletida também em sua língua

[Artigo originalmente publicado por Sophie Knight no jornal The Japan Times em 30 de janeiro de 2017]

Historicamente, duas das piores palavras da língua japonesa têm relação ao útero de uma mulher: 石女 (umazume, mulher de pedra), um insulto direcionado a mulheres que não foram capazes de dar à luz; e 畜生腹 (chikushō-bara, ventre de besta), para mulheres que deram à luz a gêmeos ou trigêmeos - já que a sabedoria popular afirmava que somente animais tinham múltiplos nascimentos.

Grande parte das palavras "sujas" japonesas gira em torno dos órgãos reprodutivos femininos, o que certamente diz algo sobre os valores da sociedade e sua cultura. A língua revela os julgamentos e preconceitos do grupo; ela especifica como veem o mundo e como querem que ele seja - e, ao fazer isso, dão forma a esse mundo. Levando em consideração que tantas palavras humilhantes e negativas relacionadas às mulheres continuam a ser utilizadas, seria alguma surpresa o fato de que o sexismo permanece abundante no Japão?

Isso fica claro a partir da edição do 30º aniversário de lançamento do livro "Womensword: What Japanese Words Say About Women", escrito por Kittredge Cherry. Embora tenha sido originalmente publicado em 1987 e algumas partes não estejam mais em uso, a narrativa geral ainda é surpreendentemente relevante. A obra curta, meticulosamente pesquisada de Cherry, está cheia de descrições vívidas e contos históricos esclarecedores sobre as palavras relacionadas às mulheres, ilustrando como a feminilidade, as qualidades de uma mulher e o papel das mulheres são vistos na sociedade japonesa.

A escrita de Cherry é espirituosa, mas essa coleção de pequenos textos é lida, às vezes, como a história sombria da opressão sexual. É espantoso o número de palavras existentes que diminuem e objetificam as mulheres.

Veja, por exemplo, a forma com a qual 女 (onna, mulher) frequentemente significa algo maligno ou subjugado quando faz parte de outra palavra: 奴隷 (dorei, escrava) quando combinada com o caractere usado para "mão"; três mulheres juntas são 姦しい (kashimashii, barulhentas), ou até mesmo sujeitas a 姦する (kan suru, estupro, sedução ou assédio); uma mulher entre dois homens significa 嬲り殺し (naburi-koroshi, morte por tortura). Ciúmes, de acordo com o kanji em 嫉む (sonemu), é uma doença das mulheres.

O fato de que homens estão acima das mulheres é óbvio: tanto homens quanto mulheres ficam ofendidos quando chamam seus comportamentos ou ideias de  女性的 (joseiteki, coisa de mulher). Nenhuma mulher quer ser uma 男勝り (otoko-masari, superior aos homens), pois é algo que soa arrogante; 女以下 (onna-ika, pior do que uma mulher) é um dos piores insultos que pode ser direcionado a um homem.

Outro grupo de palavras do livro reforça a crença de que mulheres existem para ser 良妻賢母 (ryōsai-kenbo, boas esposas e mães de sabedoria).  花嫁修業 (hanayome-shugyō, formação nupcial) sugere que melhorar a si mesma deveria ser algo a serviço de laçar um bom parceiro; 永久就職 (eikyū-shūshoku, emprego eterno) se refere às responsabilidades da esposa, reconhecendo que o casamento é um arranjo econômico; e casar com um cara muito mais rico do que si mesma é uma atitude elogiada como  玉の輿に乗る (tama-no-koshi ni noru, montando num palanque cheio de joias), em vez de ser desprezada como uma união só por interesse, como é em inglês.

Do outro lado do espectro que vai de Madonna a prostituta, existe a expectativa de que um homem merece ter seus desejos sexuais realizados: estudiosos conseguem dizer 30 palavras para prostituta, mas nenhuma delas se refere ao homem que compra seus serviços. O kanji para 痴漢 (chikan), que se refere a homens que cometem abusos em trens e afins, é formado por caracteres que significam "tolo" e "homem"; Cherry sugere que isso seja um "reflexo da forma tolerante com a qual esses tolos são vistos pela sociedade" - como meramente estúpidos, em vez de criminosos que cometem abusos sexuais.

Felizmente, no entanto, existem algumas palavras de reverência também: 天照大神 (Amaterasu-ōmikami, Amaterasu, a deusa do sol) é a ancestral de todo o povo japonês e a divindade suprema do Shinto, uma das poucas religiões que enxergam o sol como mulher. As mulheres tinham mais poder político e religioso em tempos antigos, quando o Japão era matriarcal. Duas tradições daquele tempo que sobreviveram são 婿養子 (mukoyōshi, quando um homem se casa com uma mulher e fica com o sobrenome dela) e 里帰り(sato-gaeri, quando as mulheres vão até a casa das mães para dar à luz, deixando seus maridos em casa).

Como essa 30º edição foi atualizada apenas com uma nova introdução, o texto em si está ultrapassado. Os argumentos são fundamentados em pesquisas conduzidas em 1982 ou até mesmo antes, e há frases chocantes como "levará anos até que o verdadeiro impacto da Lei de Oportunidades de Emprego Igualitárias [aprovada em 1985] seja reconhecido". Leitores novos que não conhecem o Japão muito bem podem acabar acreditando que os empregadores ainda se certificam de que mulheres solteiras estejam morando com seus pais, que alguns trabalhadores só dizem três palavras para suas esposas (Jantar! Banho! Cama!) e que o White Day é uma estratégia de marketing recente e sem sucesso.

Cherry explica em sua introdução que ela tem esperado em vão por três décadas por alguém que escrevesse um livro atual equivalente ao "Womensword", mas ninguém o fez até então. Parece que problemas de saúde, os quais a forçaram a ter uma aposentadoria precoce, se tornaram um empecilho para que ela pudesse fazer uma atualização mais compreensiva do resto do texto. Entretanto, a introdução dela consiste em uma avaliação detalhada do que mudou nesses últimos 30 anos, incluindo o reconhecimento crescente das questões envolvendo transgêneros, o fato do casamento estar se tornando cada vez menos atrativo para as mulheres, casamento igualitário para as lésbicas, a diminuição da taxa de natalidade, a "womenomics" e o aumento do celibato voluntário entre ambos os sexos.

Ainda que seja mais um texto socio-histórico do que um guia vernáculo contemporâneo, o "Womensword" continua sendo um rico e precioso tesouro com palavras e reflexões sobre aspectos da feminilidade japonesa que você não encontrará em nenhum outro lugar.