Tradução | "Seu gosto é ruim e você também"



"Em algumas noites, é apenas entretenimento; em outras, é real."
- The Hold Steady

"Seu anime preferido é uma BOSTA. BOSTAAAAAAA."
- A Internet

"Você acha que ao fazer a avaliação de uma peça de mídia você está, em partes, fazendo algum tipo de afirmação sobre aqueles que curtem aquela mídia?"

Essa foi a pergunta que solicitou esta postagem e ela me deixou perplexo por um longo, longo tempo. A reação instintiva é "não, isso não é verdade - as pessoas gostam de coisas diferentes e elas têm o direito de gostar do que quiserem". Mas isso seria apenas desviar da pergunta, certo? Sim, as pessoas têm o direito de gostar de, vamos supor, uma fantasia incrivelmente racista sobre como Hitler estava certo. Mas quando eu disser "discordo do seu ponto de vista" para um fã, não estarei silenciosamente acrescentando um "seu racista de merda"?

Mais ou menos. Talvez? Não é tão simples assim.

"Não é tão simples assim" foi a minha resposta naquele momento. "Isso exige a elaboração de uma dissertação completa". E é verdade! As duas coisas são verdadeiras. A relação que temos com a mídia é complexa - o que gostamos não nos define inteiramente, mas também não está completamente distante daquilo que somos. Ela diz algo. Significa algo. Entretanto, ela não precisa significar tanto e não temos que levar essas críticas para o lado pessoal. Ou talvez deveríamos levá-las um pouquinho para o lado pessoal, o que é, na verdade, importante. Talvez devêssemos aprender a pensar um pouco menos em nós mesmos do que estamos acostumados a fazer.

Aqui está o que eu penso sobre isso.


Primeiramente, acredito que devo reiterar mais uma, duas, ou algumas dúzias de vezes que a relação que temos com a mídia é extremamente complicada. A experiência de se engajar com um objeto de arte é um tipo de alquimia - a obra em si possui uma variedade de critérios estéticos, quem está vendo possui uma variedade de critérios emocionais, e a experiência criada através da interseção dessas ideias sempre será algo pessoal. Animes são intensa e desconcertantemente complexos, oferecendo infinitos detalhes aos quais podemos reagir, e avenidas de conexão. As pessoas são ainda mais complicadas e cada um de nós carrega dentro de si o peso de uma coleção de milhões de experiências, e todas elas afetam as formas com as quais nos engajamos com a mídia e o que, exatamente, tiramos dela. Reduzir a nossa relação com a mídia a "gostamos de coisas que são boas e não gostamos de coisas que são ruins" é fazer um desserviço extremo à complexidade, tanto da arte como da natureza humana. E "identificar-se com sua mídia" se torna um conceito muito mais complicado quando você aceita que a sua relação com a "sua mídia" é uma coisa única e pessoal. Podemos gostar de coisas por diversas razões.

Nesse sentido, um dos primeiros pontos que devo esclarecer é que você pode gostar e desgostar de uma obra ao mesmo tempo. Obras de arte não são condutas estreitas de mensagens únicas - elas são fusões complexas de várias ideias e conceitos. Se você identificar algo condenável em uma obra, isso não significa que ela automaticamente será ruim para você. O exemplo que me vem à mente aqui é Monogatari - é um dos meus animes preferidos, mas eu considero seu protagonista central, Araragi, um personagem repreensível que o anime na verdade ama e apoia. Isso cria uma distância entre mim e Monogatari, mas Monogatari é uma obra extremamente complicada, e eu posso gostar do anime por uma variedade de motivos ainda que eu desgoste de elementos significativos dele. Isso não faz de mim "melhor ao apreciar mídias" do que alguém que não gostaria da obra por qualquer uma dessas questões - é só que minhas ideias são diferentes das ideias de outras pessoas e portanto, na minha experiência pessoal com essas obras, eu consigo deixar de lado coisas que fariam outros pensarem, com razão, que essas obras são terríveis. E é óbvio que isso não está relacionado exclusivamente com aquilo que discordamos moral ou emocionalmente em uma obra - é apenas uma extensão do fato de que podemos encontrar coisas para gostar até mesmo em obras que achamos esteticamente falhas também.


Podemos gostar de obras sem admirar ou concordar com todos os elementos presentes dentro dessas obras. Isso parece simples, porém reflete nas milhares de formas que nos engajamos com a mídia e, às vezes, pode ser difícil de admitir. O importante aqui é não se alinhar inteiramente com aquilo que você consome, ou defendê-lo como justo ou sem significado - o importante é estar ciente daquilo que você está se engajando. E é aqui onde entramos em um território que as pessoas estão um pouquinho menos dispostas a admitirem.

As pessoas não gostam de ser julgadas por suas mídias. Elas não querem pensar que seu gosto é "errado" de alguma forma e que isso poderia ser um reflexo de que algo está errado com elas. Nesse sentido, as pessoas desenvolveram alguns mecanismos de defesa relacionados à crítica de mídias. Tenho certeza que há muitos outros, mas possuo a tendência de ver principalmente dois, que são de alguma forma mecanismos de defesa diametralmente opostos quando se diz respeito à mídia - ou declaram que todas as suas escolhas de mídia são sem significado, ou defendem que todas as suas escolhas de mídia possuem algum valor. Esses geralmente caem em categorias razoavelmente previsíveis - pessoas que assistem muitos filmes violentos ou haréns ou seja lá o que mais pendem para o lado do "todas as mídias são apenas entretenimento e não me refletem como telespectador", enquanto pessoas que tendem a ver a si mesmas como defensoras da mídia progressista tentam encaixar tudo que elas assistem dentro de algum tipo de mensagem progressista. Essas duas perspectivas fazem sentido emocional - por um lado as pessoas frequentemente recorrem à mídia para curtir um escapismo sem consequências, por outro, pessoas que se identificam de forma profunda com sua mídia frequentemente querem que a mídia se identifique profundamente com elas. Embora essas sejam mensagens opostas, elas vêm exatamente do mesmo lugar - um desejo de defender uma ponte entre suas preferências de mídia e sua identidade pessoal. Ou a mídia não significa nada, ou significa que suas preferências pessoais são "boas".


Ambas as escolhas são, sem surpresa alguma, armadilhas - elas não estão baseadas no engajamento com sua mídia de fato, estão baseadas em defender a sua identidade pessoal. Elas nos cegam quanto à conscientização da mídia, porque ou significam que não podemos começar uma conversa sobre o que a arte realmente significa e diz sobre nós como pessoas (do lado do sem significado) ou estão partindo de uma posição de defesa e uma forte ideologia pessoal (do lado do valor). Elas atrapalham a conversa, porque a conversa sobre arte imediatamente se torna sobre identidade. E isso não deveria ser uma surpresa, já que por toda sua complexidade, a arte contém mensagens claras, filosofias e visões de mundo as quais as pessoas reagem. Nenhuma arte não possui significado algum, nenhuma arte não possui uma ideologia - todas as histórias possuem uma mensagem, mesmo que essa mensagem seja apenas o que o criador da obra vê como um mundo normal. Nossa relação com a arte é complexa, mas isso não significa que reagimos à arte aleatoriamente, e que as nossas preferências estão completamente separadas da nossa identidade. Gostamos das coisas por causa da combinação de elementos inerentes àquela obra e a nossa própria visão de mundo. Nossas escolhas de mídia refletem as nossas preferências inerentes.

Essa não parece ser uma afirmação controversa a se fazer, mas a nossa relação com nossas identidades aparentemente é problemática o suficiente para que esse seja o caso. Gostamos das coisas porque gostamos. Apreciamos o que elas estão dizendo e oferecendo a nós. Elas nos dizem aquilo que queremos ouvir, ou oferecem exemplos de coisas que desejamos, nossas preferências humanas. Às vezes essas preferências são "garotos fofos tirando suas camisas", às vezes são "um mundo onde alguém com o qual eu me identifico é poderoso". Tendemos a gostar da mídia porque a mídia é gentil com nossas preferências e crenças.


Essa é uma grande parte do porquê nos identificamos com a mídia e por que entendemos ataques a ela como ataques a nós mesmos. Porque às vezes eles são. Se alguém critica uma obra dizendo que ela "foi feita só para satisfazer uma fantasia de poder" e você gosta dela justamente porque ela te faz sentir empoderado, então sim, temos uma discussão rolando ali. O argumento de que "podemos gostar de obras por uma variedade vasta de razões" começa a se despedaçar quando o crítico e o fã estão falando sobre a mesma razão. A distância entre o argumento artístico e o argumento pessoal pode se tornar facilmente sem sentido, porque nossas preferências estéticas refletem nossas preferências pessoais. O artístico é inerentemente o pessoal e o pessoal é inerentemente o político - assim como a arte carrega uma mensagem, as nossas preferências de arte também carregam. Não tem como escapar disso - mesmo a afirmação "essa obra não possui mensagem alguma" é política, implicando que você já concorda com a ideia de "neutralidade" daquele anime. E quando alguém diz que um anime que você gosta é só para satisfazer uma fantasia ou ruim de modo que você possa reconhecer que aquilo reflete diretamente no seu divertimento, é difícil não ver isso como uma crítica a um elemento da sua própria identidade.

E você sabe o que mais?

Está tudo bem.

Não nos engajamos com nossas mídias por razões que reflitam nossos maiores e mais nobres instintos. Muitas das coisas que gostamos e muitas das razões pelas quais gostamos são bobas, simples e um reflexo de peculiaridades pessoais, não virtudes pessoais. Muitas das coisas que gostamos não são Shakespeare, muitas das razões que gostamos de coisas não são porque elas promovem um êxtase estético ou uma grande humanidade comum. Nossas preferências pessoais não são sempre "louváveis" e seria tolo assumir que são. Tolo porque está claro que não é verdade e tolo também porque mata a conversa - se não estivermos dispostos a ouvir críticas sobre as nossas mídias porque não estamos dispostos a ouvir críticas sobre nós mesmos, então nos tornaremos cegos àquilo que consumimos e não poderemos aprender mais sobre as nossas mídias ou sobre nós mesmos. E isso é uma pena, porque até mesmo quando estamos assistindo algo absolutamente terrível, uma das melhores coisas sobre a mídia é que ela sempre pode nos dizer algo sobre nós mesmos. Por que gostamos dessas coisas? Não, a resposta não é só "porque" - mas por quê?


Muitas pessoas querem acreditar que suas escolhas de mídia as tornam especiais. A verdade é que elas tornam... mais ou menos. A mídia que você já consumiu e escolhe consumir é um reflexo do que você quer como pessoa, o que você sabe como pessoa, o que você toma como verdade, as coisas que você valoriza ou sente uma forte conexão com, e todo o resto que forma a sua personalidade inerente. As suas escolhas de mídia te tornam especial porque elas são um reflexo da sua identidade, e todo mundo é diferente, todo mundo é "especial". Mas isso é muito, muito diferente de dizer que suas escolhas de mídia te tornam alguém admirável. Não há nada inerentemente "errado" com passar o seu tempo livre curtindo um entretenimento bobo, mas também não há nada inerentemente nobre quanto a isso. O valor não é evidente por si mesmo - as pessoas criam o valor através de um engajamento significativo, não é adquirido simplesmente através de qualquer ação que fazemos. E o desejo de se provar o contrário é uma indicação clara de um passo crítico que as pessoas estão subconscientemente pulando.

Autorreflexão é algo duro e por mais simples que seja, "minha mídia é um reflexo das minhas preferências pessoais" pode ser difícil de engolir. No entanto, eu penso que a verdadeira razão pela qual as pessoas ficam tão bravas com relação a esse tópico é a presunção comumente ligada a ele que vem a seguir: "portanto, meu gosto com relação à mídia pode demonstrar se eu sou uma pessoa boa, ruim, interessante ou chata". E esse é um limite que não deveríamos ultrapassar, e também um reflexo do triste fato que comprova o quanto as nossas mídias se tornaram nossa identidade. As mensagens das suas mídias e o que elas dizem sobre as suas preferências existentes são coisas importantes para se estar ciente e investigar ativamente, mas elas não ditam os seus valores como um ser humano. Somente as suas ações podem fazer isso.


Não temos muito o que fazer quanto às coisas que gostamos. Lentamente, ao longo do tempo, mudamos como pessoas e nossas preferências mudam também - mas não há um interruptor que possamos apertar para que de repente comecemos a gostar de ficção pós-moderna ou freeform jazz. Somos produtos do nosso ambiente, criados pela mídia para gostar do que gostamos, e nosso controle consciente sobre nossos desejos subconscientes é, no máximo, limitado. Todos nós somos obras sociais e psicológicas em construção - todos nós somos misturas de ignorância e sabedoria, egoísmo e empatia, orgulho e arrependimento. Negar o espelho das nossas mídias é negar a nós mesmos, e é somente através do reconhecimento de ambos que podemos esperar engajarmo-nos honestamente, esperar aprender sobre nós mesmos e sobre os outros. Porém, o reflexo da mídia sobre a nossa identidade não precisa ditar os nossos valores ou ações. Cada um de nós possui preferências de mídia estranhas e individuais, porque todos nós somos pessoas individuais - mas nós não somos definidos por nossos desejos básicos mais do que somos definidos pela mídia na qual eles estão refletidos. Não importa se você é uma pessoa estranha, distorcida por dentro - se você passar todo seu tempo pensando em atear fogo a filhotinhos enquanto na realidade você estiver sendo voluntário em seu orfanato local, você é uma pessoa muito boa.

Eu não sei onde que as pessoas ouviram que suas preferências comportamentais de base são inerentemente honrosas, mas a interação entre os nossos desejos e nossas ações não é tão simples assim. Valores são coisas que impusemos a nós mesmos na procura do mundo que queremos, não qualquer coisa que inerentemente nos faça sentir bem. Nossas preferências de mídia são frequentemente um reflexo do nosso eu animal, mas nós não somos animais. Nossas mentes podem conjurar e nossas ações aderir a um nível mais elevado de comportamento do que nossos cérebros de lagarto desejam. Nós somos muito mais do que nossas mídias, e a grandeza das nossas ações deveria ser mais do que as vigas de base das nossas preferências de mídia. Nossas identidades não deveriam ser previstas pelo nosso autoindulgente eu. Precisamos ser mais do que aquilo que escolhemos consumir.


O que nos leva de volta para o perigo de construir uma identidade sob a mídia que você ama. Pode ser confortável se definir de um jeito que inerentemente te ofereça uma comunidade com mentes parecidas, mas temos que ser mais do que nossa mídia. Tanto pelo bem da autocrítica como pelo bem das nossas próprias vidas - porque uma identidade construída apenas de preferências de mídia é tanto oca quanto provável a entrar em colapso quando criticada. A defensiva, nascida de um desejo compreensível de defender a sua autoimagem existente, só vai te empobrecer no fim das contas. Não tente provar que você é uma pessoa interessante ao exigir que os outros respeitem as suas escolhas de mídia. Prove sendo interessante - ao desenterrar daquela mídia algo que valha a pena conversar sobre ou, ainda melhor, por curti-la porque é o que você curte, e então ir e fazer outra coisa também. Nossas preferências e a mídia são significativas porque elas podem nos ensinar tanto sobre nós mesmos quanto sobre o mundo. Mas nós escolhemos nossas ações, e jamais podemos nos esquecer disso. Portanto, seja mais do que suas mídias. Leve os ataques as suas mídias em consideração, mas se você mesmo já se conhece, você não deve ver essas afirmações como ataques a sua identidade toda.

E lembre-se, você frequentemente gostará da mídia porque ela te diz o que você já quer ouvir. Mas assim como acontece com pessoas, se você só interagir com mídias que concordem com você, você não crescerá como pessoa. E se você não desafiar a sua mídia e de fato interrogar a filosofia dela, então você absorverá todas as mensagens dela sem questionar. Afirmar que você está acima da influência de suas mídias é essencialmente ser uma criança afirmando que ela é grande o suficiente para assistir o filme assustador e que ela definitivamente será capaz de adormecer logo depois. Nós não temos como escolher a forma com a qual uma vida inteira de mensagens de mídia interagem com o nosso subconsciente, a nossa percepção de "socialmente normal" - a mídia normaliza atitudes, e a nossa reação à mídia indica o que nós normalizamos. Todas as mídias são propagandas. Todas as mídias estão divulgando algo. O que é a última razão pela qual críticas à mídia e autorreflexão são tão importantes - porque uma mensagem que não é examinada é uma mensagem acreditada. 


Portanto, se você quiser fazer da mídia uma grande parte da sua vida, então eu te aconselharia a desafiar a si mesmo. Experimente coisas que você não está predisposto a gostar e concordar. Você provavelmente encontrará mais coisas com as quais você possa se engajar do que esperava, e através disso você poderá seguir a trilha de volta e se conectar com novas pessoas, novas perspectivas. A estranheza individual das nossas preferências, a natureza ignóbil das nossas peculiaridades não devem ser motivo para não ouvir críticas ou nos afastar das pessoas, e para recusar se engajar com uma mídia de autoconhecimento que possa verdadeiramente gerar inspiração. Elas são apenas reflexos do fato de que todos nós somos especiais e temos algo para aprender uns dos outros.