Recomendação | Duas obras para entender como funciona a indústria dos animes e mangás

Acredito que toda pessoa curiosa que seja fã de animes e mangás já deve ter se questionado em algum momento como a indústria funciona. Perguntas como, por exemplo, quem são as pessoas por trás das obras maravilhosas (e outras nem tanto) que encontramos por aí? Como é o processo de criação de um anime? Quem decide se um mangá será aceito, publicado, serializado, transformado em anime ou não? - entre muitas outras dúvidas que nos surgem quando paramos para pensar sobre esse assunto.

Por incrível que pareça, considerando que a indústria é enorme e há milhões de pessoas ao redor do mundo acompanhando os resultados dos trabalhos que são feitos por ela, é muito difícil encontrar matérias que tenham credibilidade, fontes confiáveis e tudo mais, que expliquem detalhadamente como a indústria funciona. Nem mesmo em inglês se encontra informações com facilidade (outro dia fui procurar sobre os estúdios japoneses, por exemplo, e não achei muitas coisas além de rankings de vendas e informações básicas sobre cada um). A maior parte do material acessível, acredito eu, é disponibilizado em japonês - uma língua que não é comum nem um pouco parecida com a nossa - e todos sabemos como tradutores online e afins não costumam ser bons o suficiente para ter uma boa compreensão de textos completos.

Pensando nisso, decidi criar essa postagem de recomendação para indicar e falar sobre duas obras que nos mostram como funciona a indústria dos animes e mangás. Quem melhor do que os próprios japoneses para discutir esse assunto, não é mesmo?

Comecemos com a obra mais antiga entre as escolhidas: Bakuman.

Bakuman.
Demografia: Shounen
Gênero: Comédia, Romance
Episódios: 25 (primeira temporada) + 25 (segunda temporada) + 25 (terceira temporada)
Estúdio: J.C.Staff (Toradora, Shokugeki no Souma)
Material: Mangá
Ano de Lançamento: 2010
Diretor: Kasai Kenichi (Amanchu!, Nodame Cantabile)

Sinopse: Quando criança, Moritaka Mashiro sonhava em se tornar mangaká, assim como seu tio e herói de infância Tarou Kawaguchi, criador de um mangá popular de comédia. Entretanto, quando uma tragédia acontece, ele desiste de seu sonho e passa seus dias do ensino fundamental com o objetivo de se tornar um assalariado.

Um dia, seu colega de classe Akito Takagi, o melhor estudante da escola e aspirante a escritor, nota os desenhos detalhados do caderno de Moritaka. Ao ver o potencial vasto de seu talento artístico, Akito se aproxima de Moritaka e propõe a ele que eles se tornem mangakás juntos. Depois de muitas tentativas de convencimento, Moritaka se dá conta de que se ele for capaz de criar um mangá popular, ele poderá conseguir que a garota pela qual ele tem uma queda, Miho Azuki, participe da adaptação de anime do mesmo como dubladora. Com isso, a dupla começa a criar mangás sob o nome artístico de Muto Ashirogi, na esperança de se tornarem os maiores mangakás do Japão, do tipo que ninguém nunca viu antes.


É possível que muitos de vocês já tenham ouvido falar sobre esse título antes devido ao fato de seu criador, Ohba Tsugumi, ser o mesmo de um dos animes mais famosos dos anos 2000: Death Note. Ohba foi responsável pela história de Bakuman, enquanto a arte foi feita por Obata Takeshi (All You Need Is Kill, Death Note), que também fez o character design utilizado no anime.

Confesso que faz alguns anos que assisti a adaptação feita pelo estúdio J.C.Staff e portanto não vou me lembrar de falhas específicas que eles possam ter cometido. Devo acrescentar, no entanto, que a essência da obra original foi mantida (afinal, os criadores trabalharam com a adaptação) e que o estúdio é um dos grandes da indústria, com o qual não tenho nenhum problema em particular.

No cast principal temos Abe Atsushi (Touma de To-Aru, Izumida de Yowamushi Pedal) como Mashiro e Hino Satoshi (Daichi de Haikyuu!!, Yuuji de Shakugan no Shana) como Takagi. O elenco ainda traz alguns outros nomes de peso, como por exemplo Hayami Saori (Shirayuki de Akagami no Shirayukihime, Kagura de Fairy Tail) como Miho, Suwabe Junichi (Freed de Fairy Tail, Archer de Fate) como Fukuda e Okamoto Nobuhiko (Karma de Ansatsu Kyoushitsu, Rin de Ao no Exorcist) como Niizuma.

Bakuman. é, sem sombra de dúvidas, uma obra bastante esclarecedora para quem gostaria de entender como é, mais ou menos, a vida de um mangaká. Ela nos mostra tudo: desde o brainstorm feito pelos criadores para definir as ideias de uma obra, as dificuldades enfrentadas para ter tais ideias aceitas, as exigências realizadas pelas editoras, as dezenas de vezes que é preciso rever o "rascunho" dos capítulos, as conversas com os editores, até o que precisa ser feito para ter um trabalho serializado, as competições e prêmios realizados pelas revistas para testemunhar o talento de cada mangaká, as reuniões, os números, as vendas, absolutamente todo o processo até chegar no produto final.

A vida de um mangaká definitivamente não é fácil. É preciso ter muita força de vontade para lidar com tantas coisas (principalmente com o cumprimento dos prazos para publicação que são exigidos de cada um deles). Não é incomum encontrar mangakás que tenham ficado doentes por excesso de trabalho, por se alimentarem mal ou não dormirem direito, por exemplo. É realmente uma coisa de louco! - eles amam mesmo o que fazem. Exatamente por isso mangakás que já tenham uma renda mais sólida contratam assistentes para auxiliá-los (e o anime nos mostra isso também).


Os personagens de Bakuman. possuem personalidades distintas, o que é muito legal porque reflete no trabalho de cada mangaká, nas mensagens que eles querem passar, na forma com a qual eles se expressam para o seu público alvo. Há também a questão dos mais e menos talentosos, aqueles que dão tudo de si e aqueles que só fazem o necessário, a variação do quão "apaixonado" alguém é pelo que faz.

Em obras desse tipo encontramos diversos valores, destacando especialmente o esforço para atingir um objetivo. Existe também a amizade e o romance, ambos tendo o seu devido desenvolvimento (estão, inclusive, entrelaçados de certa forma). É interessante ver como os personagens ajudam uns aos outros (mesmo que sejam apenas rivais servindo como fonte de motivação).

Bakuman. também nos leva a fazer reflexões sobre a indústria. Lembro-me claramente que a reflexão que mais ficou comigo foi a seguinte: o quanto uma editora pode interferir no trabalho de um mangaká e o quão importante são números (dinheiro) quando comparados à satisfação de se fazer aquilo que ama da forma que deseja? Discuti sobre isso com alguns colegas no Twitter outro dia e gostaria de dizer novamente que as pessoas as quais decidem criar uma história com começo, meio e fim, e são capazes de terminá-las exatamente onde sentem que é a hora, possuem todo meu respeito e admiração. Imagino o quão difícil seja dizer que gostaria de terminar uma história de muito sucesso quando a editora está visando o lucro que ela traz - certamente vão querer que o mangaká continue. No entanto, estender desnecessariamente uma história a qual o criador já sente que conseguiu passar a mensagem que queria e colocar no papel todas as ideias que tinha, pode ser bastante desastroso. Forçar um mangaká a continuar um trabalho que ele não quer pode, inclusive, fazer com que ele odeie aquilo que ama fazer - e isso é realmente terrível. O dinheiro não deveria falar mais alto do que a paixão do mangaká por aquilo que faz - embora saibamos que na realidade não é bem assim.

Enfim, é uma obra que realmente vale a pena ler/ver. Não sei que nota eu daria hoje caso assistisse ao anime novamente, mas por enquanto vou confiar no meu julgamento anterior e deixar aqui o meu 8/10.

Shirobako
Gênero: Comédia, Drama
Episódios: 24
Estúdio: P.A. Works (Angel Beats!, Another)
Material: Original
Ano de Lançamento: 2014
Diretor: Mizushima Tsutomu (Ookiku Furikabutte, Prison School)

Sinopse: Shirobako começa com as cinco membros do clube de animação do Colégio Kaminoyama fazendo um juramento sobre trabalhar duro em sua primeira produção amadora e transformá-la em um sucesso. Depois de mostrá-la para uma audiência no festival cultural, o juramento delas se tornou um grande sonho - elas se mudariam para Tóquio, arranjariam empregos na indústria de animes e um dia se uniriam para criar algo incrível.

Dois anos e meio depois, duas das cinco membros, Aoi Miyamori e Ema Yasuhara, tornaram seus sonhos realidade ao conseguir um lugar em uma companhia de produção famosa chamada Musashino Animation. Tudo parece perfeito no início. Entretanto, as garotas descobrem aos poucos que a indústria de animação é um pouquinho mais pesada do que elas haviam imaginado. Quem disse que tornar seu sonho realidade era fácil?


Shirobako é um anime tão bom que eu nem sei por onde começar, porém afirmarei sem qualquer hesitação que essa foi uma incrível obra de arte que o ano de 2014 nos trouxe (só não vou dizer a melhor porque a briga pelo topo com Haikyuu!! é bastante acirrada no meu coração). Ela tem de tudo: uma boa escrita proporcionada por Urahata Tatsuhiko (antes funcionário da Madhouse e hoje freelancer, já tendo trabalhado com obras como GATE e NANA) e Yoshida Reiko (também mangaká e responsável pelo script de animes como Bakuman. e D. Gray-man); uma trilha sonora memorável organizada por Hamaguchi Shiro (One Piece, Tari Tari) incluindo vários temas cantados pelos mais diversos nomes da dublagem japonesa; animação de qualidade do estúdio P.A. Works (sempre lembrado pela arte maravilhosa de seus backgrounds - o diretor de arte, Higashiji Kazuki, inclusive deu uma entrevista recentemente falando sobre isso) e um elenco gigantesco trabalhando nela, como pode ser visto na foto abaixo:


O anime, aliás, foi vencedor do Animation Kobe Television Award em 2015, um prêmio dado para trabalhos de televisão, teatrais ou online publicados entre setembro de 2014 e julho de 2015 pela inovação, originalidade e criatividade.

Shirobako é capaz de nos mostrar de uma forma didática e divertida como funciona o processo completo que um anime passa durante sua criação - incluindo, é claro, todo o drama envolvido e as dificuldades enfrentadas por todos aqueles que fazem parte dessa indústria. Aprendemos sobre processos de animação (Key Animation, CG), questões técnicas (efeitos sonoros, efeitos especiais, edição), arte (character design, background), além de qual é a função de cada um que faz parte da equipe (desde o diretor até os seiyuus e quem faz os "corres" dentro e fora do estúdio).


É maravilhoso ver como um grupo tão grande de pessoas consegue se mover em direção a um único objetivo e como todos eles, apesar das imensas dificuldades, se sentem incrivelmente satisfeitos e felizes quando conseguem completar um bom trabalho - ou seja, quando veem todo seu trabalho duro sendo recompensado com a animação apreciada na TV, tanto por eles mesmos quanto pelos fãs. É muito legal ver como cada um possui uma mensagem que quer passar através do anime, como os sonhos e objetivos uns dos outros se entrelaçam, a amizade que se desenvolve entre os funcionários de cada estúdio, o esforço que é feito por cada uma dessas pessoas com o único objetivo de entregar ao público aquele episódio que todos nós estávamos esperando.

Penso que Shirobako foi extremamente feliz em abordar as alegrias e o drama de se trabalhar com animação - o sufoco que se passa quando o orçamento não é suficiente ou quando o prazo final se aproxima e eles não sabem se vão conseguir terminar o episódio a tempo ou não, as decisões que precisam ser tomadas ao longo do caminho, os sacrifícios que precisam ser feitos e tudo mais. Gostei muito de ver o crescimento de cada personagem individualmente e como grupo também - além de possuir o diferencial de ser uma história sobre adultos e não o típico cenário escolar que estamos acostumados a ver em tantos animes. Podemos afirmar que, sim, o prêmio foi totalmente merecido.

Além disso, a comédia e o drama são bem equilibrados, o que torna a experiência de assistir Shirobako ainda melhor. Eu achei genial a forma com que eles fizeram referências a lugares, estúdios, estações, pessoas reais - ao mesmo tempo em que não estavam comprometendo ninguém. Não pensei que esse dia chegaria, mas eu tive a felicidade de ver a Itou Shizuka dublando... isso mesmo, ela mesma! (A personagem se chamava Suzuka, though).

Vão por mim, assistam essa obra maravilhosa que vocês não irão se arrepender! Eu custo a dar nota 10 para um anime, mas Shirobako com toda certeza é digno de um.

Espero que tenham gostado do post! Caso tenham assistido algum outro anime que retrate a indústria dos animes e mangás, deixem como sugestão nos comentários! ;)