Vamos Problematizar? | Retratação de personagens femininas: os clichês e estereótipos que ninguém aguenta mais

Mês passado eu publiquei um artigo falando sobre a falta de protagonismo feminino no mundo dos animes, explorando uma questão que incomoda bastante quem já passou por um processo de desconstrução e enxerga o problema que é a falta de representatividade existente no conteúdo que consumimos. 

Naquele texto mencionei alguns pontos referentes à retratação de personagens femininas, porém eles não são suficientes para refletirmos aprofundadamente de forma geral sobre esse assunto. Por esse motivo, venho aqui propor uma nova discussão pra vocês, dessa vez focando especificamente na retratação de personagens femininas nos animes, citando, explicando e exemplificando os clichês e estereótipos que ninguém aguenta mais.

Vamos começar com a óbvia objetificação e sexualização do corpo da mulher, que está diretamente ligada ao fanservice exagerado que encontramos principalmente em animes que levam a classificação de ecchi. Alguns títulos famosos são: No Game No Life, Highschool of the Dead e Zero no Tsukaima.


Primeiro ponto: do que se trata a objetificação e a sexualização do corpo da mulher? Resumidamente, é quando os autores utilizam os corpos femininos como uma ferramenta para atrair leitores/telespectadores e vender mais, fazendo isso por meio da sexualização deles (sabem, aqueles ângulos bizarros em que pegam peitos e bundas, as personagens que têm essas partes do corpo anormalmente grandes, as roupas minúsculas que muitas vezes nem fazem sentido já que o objetivo é muito simples: quanto mais mostrar, melhor, etc).

Por que isso é um problema? Bem, está mais do que óbvio que a principal função dessas personagens é simplesmente atrair um público específico para consumir o material em questão. O autor não está buscando dar representatividade para as mulheres, mas sim tratando-as como objeto e ignorando completamente as consequências que isso pode gerar. Acontece muito de as personagens não terem quase ou nenhum desenvolvimento ou relevância pra história. São um mero artifício mesmo, um enfeite.

Segundo ponto: o principal argumento que se utiliza para tentar "justificar" essa objetificação e sexualização que ocorre nessas obras é o público alvo. Claro, é inegável que elas têm como objetivo o público masculino (que, diga-se de passagem, provavelmente não vai ver problema nenhum nisso e inclusive ficar feliz da vida com as ~gostosas~ mostrando tudo e mais um pouco), então seria razoável que quem não gostasse dessas coisas, não consumisse esses materiais. E adivinhem? Eu, por exemplo, tento fazer isso! 

Poxa, Shinobu, eu te amo, mas qual a necessidade dessa roupa?
Já assisti muita porcaria (vários ecchis e haréns), especialmente quando comecei a ver animes há alguns anos, e constatei que elas realmente não eram pra mim. Se eu vejo que a obra está classificada como ecchi ou harém, procuro passar longe; só com um motivo MUITO bom pra me fazer assisti-la mesmo. Mas, pasmem, é agora o negócio fica sério: esse tipo de coisa não acontece somente em ecchis e haréns! O fato é que neles apenas acontece numa quantidade muito maior. Logo, a justificativa do "público alvo" não é válida. Dá pra encontrar isso em praticamente todos os gêneros. E depois de TANTO ver isso, nós, mulheres, já nos cansamos dessa retratação que fazem de nossos corpos. É muito chato saber que te tratam como um objeto e só querem ganhar dinheiro em cima disso.

Essa espécie de fanservice exagerada é muito incômoda e às vezes me passa um sentimento de desperdício, no sentido de ser desnecessário e acabar "estragando" uma obra. Por exemplo, No Game No Life é um anime que possui uma história legal, realmente não precisava das cenas ecchis que foram inclusas. Tem centenas, quiçá milhares de exemplos de obras que não precisavam disso: Fairy Tail, Magi: The Labyrinth of Magic, Btooom!, Guilty Crown... [insira aqui 90% dos shounens e seinens que, embora não sejam classificados como ecchis, possuem cenas similares às que descrevi anteriormente]. 



Eu já gostei muito de Fairy Tail, sou apaixonada por Magi, adoro Btooom!... E nunca acompanhei essas obras por causa do maldito fanservice. Portanto, o que quero dizer é que uma obra não é necessariamente ruim por ter esse problema de objetificação e sexualização (dependendo da quantidade, é claro), mas ela poderia ser ainda melhor se não tivesse. Não é preciso montar no fanservice quando se tem uma história boa a ser explorada.

Ainda sobre o corpo feminino, outra coisa que incomoda é o padrão estético do que é bonito. Eu tenho certeza que vocês já assistiram algum anime que ridicularizou uma personagem porque ela tinha peitos pequenos como uma tentativa de realmente ofendê-la ou de ser um tipo de alívio cômico. 

Primeiramente, por que alguém deveria ter vergonha por ter peitos pequenos? Existem peitos de todos os tamanhos, é normal. A mídia tenta nos enfiar padrões estéticos goela abaixo todos os dias, há muitas mulheres que possuem problemas de autoestima por causa disso, o que pode levar inclusive ao desenvolvimento de transtornos psicológicos ou alimentares. Como mulher, eu sei como é difícil conseguir amar o próprio corpo; sempre encontramos algum "defeito". Meu caso nem se compara com o que mulheres negras, gordas, entre outras características devem passar. Não é engraçado ridicularizar o corpo alheio, seja lá pelo motivo que for. Apenas parem.

Agora, deixando a retratação dos corpos femininos de lado, vamos falar sobre as relações entre personagens femininas. Já expliquei anteriormente o que é o Teste de Bechdel e como ele funciona, mas por via das dúvidas, vou colocá-lo aqui novamente:

O teste, criado em 1985 pela cartunista Alison Bechdel, consiste na seguinte análise: quantas obras (animes, nesse caso) vocês conseguem citar dentro de 1 minuto que tenham a) no mínimo duas mulheres com nomes; b) as mulheres conversam uma com a outra; c) sobre alguma coisa que não seja um homem.

É bizarro quando paramos pra pensar que até mesmo obras famosíssimas e aclamadas pelo público como Hunter x Hunter, por exemplo, conseguem falhar nesse teste. 

Eu sinceramente não sei o que é pior: uma obra não ter personagens femininas ou ter personagens femininas que só conversam entre si se o assunto for um homem, o que nos leva ao assunto desse tópico: a rivalidade feminina.

Caras, é quase inacreditável como os animes alimentam a rivalidade feminina (sabem, quando as personagens brigam pra saber quem é que vai ficar com um determinado personagem ou quando estão sempre tentando ser melhores com relação umas as outras). Todo fucking harém é um exemplo disso. Mas infelizmente encontramos a rivalidade feminina em outros lugares também. 

O mais recente que me vem à cabeça é o episódio 4 de Orange, em que a Ueda-senpai, ao ver o Kakeru conversando com a Naho, esbarrou nela de propósito e discutiu com ele, terminando com um "eu não quero que você fale com outras garotas!". É um exemplo muito típico da ideia de que as mulheres estão em um constante cabo de guerra pra saber quem vai ficar com o macho da história. Isso potencializa a) ciúmes possessivo; b) desconfiança entre as mulheres; c) imagem de que todas as outras são rivais e portanto querem roubar seu namorado; d) isenta os homens de culpa.




Primeiramente, se você está em um relacionamento com outra pessoa isso significa que você confia nela. Se você confia nela, ela não vai te trair, mesmo que outra pessoa dê em cima dela. Exigir que essa pessoa simplesmente não CONVERSE com outras é completamente ridículo. Segundo, se seu namorado der trela pra alguém que deu em cima dele, vá se resolver com ele. Terceiro, não é porque uma pessoa é mulher que ela automaticamente vai se interessar pelo seu namorado, talvez ela só queira bater um papo ou criar um laço de amizade. É possível resolver tudo na base da conversa. Seu namorado não é o último homem do mundo. Segue a vida.  

É importante ressaltarmos, no entanto, que a rivalidade feminina é uma construção do patriarcado e que nós não somos inimigas. Essa cena específica de Orange ainda tem outros problemas, pois retrata a Ueda-senpai como o famoso estereótipo de mulher histérica, fazendo com que sintamos raiva dela e não do verdadeiro culpado da história: Kakeru. Afinal, foi ele quem começou a namorar uma menina (porque, de acordo com o patriarcado, é assim que os meninos devem ser - namoradores) gostando de outra, que coincidentemente também gosta dele. Ueda-senpai tem razão de estar brava com o Kakeru, embora colocar a culpa na Naho (a forma com a qual ela reproduziu a rivalidade feminina) seja completamente equivocado e nada justifica o modo com que ela tratou a menina.

Submissão. Complexo de donzela em perigo. Existir em função do protagonista. Mano do céu, não aguentamos mais. 

Se formos falar da submissão da mulher ao homem, tratando-se do Japão, obviamente vamos entrar em um campo cultural. Não é nenhuma novidade que o Japão é um país bastante conservador que ainda espera que as mulheres sonhem em casar e ter filhos enquanto os homens trabalham para sustentar a família. Ainda assim, é extremamente chato encontrar em todo lugar a submissão feminina, de modo em que as mulheres só têm lugar no romance. Protagonistas de shoujo que endeusam o cara pelo qual estão apaixonadas (imagina se o cara mais popular da escola que se apaixonou por elas teria algum defeito), que passam por situações humilhantes ao ceder à pressão social de "precisar" ter um namorado (alô, Erika de Ookami Shoujo to Kuro Ouji), etc. 

Complexo de donzela em perigo... Putz, é um artifício tão utilizado que revirar os olhos não é o suficiente pra expressar tamanho desgosto. É aquela maldita ideia de que uma mulher não consegue se virar sozinha, ela é o sexo frágil, precisa de um homem para salvá-la (até a fucking Erza passa por esse tipo de situação). Por que raios as mulheres precisariam depender de um homem para se defenderem? Por que elas sempre têm que ser protegidas? Se forem se basear puramente em força física... Bem, sabemos que isso conta muito pouco frente a uma mulher habilidosa com qualquer mecanismo de defesa (artes marciais, armas, poderes, whatever). Às vezes nem tem necessidade de a mulher ser salva, mas ela é, só pro cara sair como ~cool~ da história.

Existir em função do protagonista: um desperdício imensurável. Bate até uma dorzinha no coração quando eu paro pra pensar na quantidade de personagens inexploradas porque elas aparecem somente como uma maneira de inspirar o protagonista a fazer alguma coisa (tô olhando pra você, Kaori de Shigatsu wa Kimi no Uso, mesmo amando muito o anime). 

Esses são alguns dos clichês mais comuns, mas se formos procurar mais afundo, com certeza encontraremos outros. 

Já falei um pouco disso no post sobre protagonismo feminino nos animes, mas tem outra coisa que me motivou a escrever esse tópico. Recentemente eu assisti o anime Baby Steps, que no geral é bom (temos que excluir a animação terrível do Studio Pierrot e alguns diálogos de revirar os olhos) e esbarrei com a seguinte cena:


O técnico sugeriu que Ei-chan jogasse uma partida contra a Nat-chan porque ela é um tipo de jogadora diferente do Ei-chan e ele acreditava que isso auxiliaria o Ei-chan na próxima partida dele. Até aí tudo bem. Mas foi então que o Ei-chan perguntou por que ele jogaria contra a Nat-chan, dando ênfase no "... com uma menina?". Claramente inferiorizando a capacidade da Nat-chan. Eu acredito que tenha sido uma cagada na escrita, porque na realidade o Ei-chan admira muito a Nat-chan e ela é uma ótima jogadora que compete a nível nacional, mas isso não fez com que a cena fosse menos machista. 

E quando eu achei que não poderia ficar pior, o técnico dele ainda soltou essa de que "ele não tinha permissão para perder pra uma garota", novamente inferiorizando a capacidade da Nat-chan simplesmente porque ela é mulher. Não sou nenhuma conhecedora de tênis, mas acredito que assim como o vôlei e outros esportes, os estilos feminino/masculino sejam diferentes, até mesmo pela questão do porte físico e não é disso que eu tô reclamando. Apenas achei o cúmulo da hipocrisia abordarem essa questão de porte físico para desmerecer a Nat-chan quando o PRÓPRIO PROTAGONISTA se encontra em desvantagem nesse quesito quando comparado a outros jogadores, mas ainda assim consegue vencer (com base na técnica, lógica, talento). Portanto, diminuir suas qualidades como jogadora pelo mero fato de ter menos força física foi ridículo.

Inclusive, é daqui que vem aquelas famosas frases do "você joga como uma garota" ou "você luta como uma garota" como forma de xingamento, como tentativa de inferiorizar outros jogadores ou lutadores. É chato, muito chato, e apenas alimenta o preconceito contra as mulheres no mundo esportivo. Apenas parem, por favor.

[Aliás, deem uma olhadinha nessa matéria... Pode ser bem esclarecedor pra quem acha que ~não existe preconceito~ ou ~não existe inferiorização~ das mulheres no esporte].

Conforme vocês podem ver no chart abaixo, existem vários tipos de "dere". No entanto, vou discutir aqui somente aqueles que eu considero mais problemáticos, embora todos eles sejam igualmente ruins no sentido de intensificarem estereótipos e limitarem as personagens (às vezes personagens masculinos também) ao arquetipo pelo qual foram definidas.

(Clique para ampliar)
Tsundere: age de forma maldosa e às vezes violenta por fora porém é doce por dentro. Tsundere é um negócio que me irrita porque nos leva àquela situação em que a personagem demonstra uma coisa, mas na verdade sente outra - o que nos leva ao maldito estereótipo de que mulher quando diz uma coisa, na verdade quer dizer outra. Isso gera problemas em vários sentidos, mas principalmente quando uma mulher diz não pra um cara porque simplesmente não tem interesse nele e o cara insiste em querer ficar com ela porque "ela só está se fazendo de difícil".

Yandere: age de forma doce e fofa por fora, mas quando ela/ele ama alguém, torna-se disposta/o a matar simplesmente para ficar com ele. É uma visão extremada, porém acontece muito quando falamos em relacionamento abusivo e aquela coisa de "possuir" uma pessoa. As pessoas precisam aprender que ninguém é propriedade de ninguém. Também poderia se tornar um agravante na questão de rivalidade feminina.

Mayadere: age como uma Tsundere, embora inicialmente tente matar o personagem, ela muda de lado ao se apaixonar por ele. Ah... O amor é lindo, né? Inclusive usado como justificativa pra tolerar relacionamentos abusivos. Pessoas, larguem essa ideia de que "o amor muda alguém". Pode até mudar, mas nem sempre vai, e acreditar nisso pode te prender em relacionamentos que só vão fazer mal a vocês.

É isso. Espero que ao final da leitura todos possam refletir sobre a retratação das personagens femininas nos animes e compreendam por que é necessário que nos posicionemos com relação àquilo que enxergamos como errado. Não vamos consumir materiais que nos ofendam; procuremos, na medida do possível, cobrar uma representação digna naquilo que consumimos; incentivemos o debate em torno dessa questão tão importante que é a representatividade das mulheres.

Sintam-se livres para concordar ou discordar de mim, citem outros exemplos de clichês ou estereótipos que lhes incomodem caso possuam, vamos conversar. É com diálogo que crescemos e nos tornamos pessoas melhores.