Tradução | Entrevista com Graham Kolbeins, diretor do documentário "Queer Japan"

Um dia desses eu estava navegando pelo site do ANN (Anime News Network) e acabei encontrando um artigo interessante: uma entrevista com Graham Kolbeins, um cineasta, escritor e designer que se identifica como queer, e é o responsável por dirigir o documentário "Queer Japan". Acredito que seja uma leitura relevante para nós que nos propomos a discutir sobre a representatividade LGBT e as dificuldades encontradas por LGBTs no Japão. Por esse motivo, decidi traduzir o artigo (postado em março) na íntegra para quem se interessar. Confira:

Meninos corados que se beijam em BLs (Boys' Love - mangás com relacionamentos entre meninos), meninas mágicas as quais timidamente dão a entender que a relação delas é "mais do que amigas". Atores de kabuki (uma forma de teatro japonesa) que se vestem como mulheres elegantes e atrizes andróginas das companhias de teatro de Takarazuka que possuem legiões de fãs mulheres. Mas há muito mais por trás de ser gay, lésbica, bi ou transgênero no Japão do que se vê em mangás e animes.


O cineasta de Los Angeles, Graham Kolbeins, e a tradutora e produtora de New York City, Anne Ishii, sabem muito bem disso. Kolbeins e Ishii são responsáveis pelos títulos de gay manga* que chegaram e foram traduzidos para o inglês e impressos nos últimos três anos. Antes da publicação de The Passion of Gengoroh Tagame em 2013, gay manga era um gênero de quadrinhos que estava na maioria das vezes disponível em inglês apenas em scanlations. Desde então, Kolbeins e Ishii vem apresentando aos leitores de inglês ainda mais criadores de gay manga, como Jiraiya, Seizoh Ebisubashi, e Takeshi Matsu com a primeira antologia de gay manga, Massive: Gay Erotic Manga and the Men Who Make It, publicado pela Fantagraphics Books em 2014. Kolbeins e Ishii também possuem um site, Massive Goods, onde eles vendem roupas, livros e acessórios exibindo o trabalho dos criadores de gay manga que fizeram parte do Massive.

Agora, Kolbeins e Ishii estão se unindo novamente para um projeto ainda mais ambicioso: o Queer Japan. Queer Japan é um documentário em produção que contará com entrevistas de "artistas, ativistas, líderes da comunidade e pessoas do dia a dia" para proporcionar uma "visão íntima de como são os triunfos e as dificuldades diárias enfrentadas por quem faz parte de uma minoria sexual no Japão moderno".

Além das entrevistas com o mestre de gay manga, Gengoroh Tagame, e o co-fundador da revista G-Men, Hiroshi Hasegawa, o Queer Japan também busca conversar com uma seção diversa de gays, lésbicas, transgêneros e queers de diferentes partes do Japão. Kolbeins e Ishii possuem várias entrevistas na mão, e agora buscam retornar ao Japão para mais alguns meses de filmagens e produção para completar o documentário e produzir um photo book. Para isso, eles precisam levantar $45.000 através da recente campanha que lançaram no Kickstarter.

Deb Aoki, correspondente do ANN, entrou em contato com Kolbeins via e-mail para saber mais sobre o projeto Queer Japan, e para se atualizar com relação a outros gay manga que estão na linha de publicação.

Qual foi a inspiração por trás do documentário Queer Japan? Houve um momento específico ou incidente que fez com que você e a Anne percebessem que queriam ou TINHAM que fazer esse filme?

Graham Kolbeins: Mais do que um momento específico, acho que foi algo que cresceu com o tempo. Em 2012, quando Anne e eu estávamos trabalhando com The Passion of Gengoroh Tagame, eu estava lendo vários textos não fictícios sobre o assunto e fiquei fascinado com as diferentes e complexas culturas queer que existiram no Japão ao longo dos séculos. Na nossa primeira viagem a Tóquio para entrevistar Tagame-san e outros artistas de Massive, eu tive uma ideia do quão rica e diferenciada a vida queer no Japão pode ser. Meu interesse apenas cresceu a partir daí.

Você e a Anne são os editores das coleções de Gengoroh Tagame, The Passion of Gengoroh Tagame (PictureBox) e Massive: Gay Erotic Manga and the Men Who Make It (Fantagraphics), mas me conte um pouco mais sobre a sua experiência com filmagens e contação de histórias.

Mais ou menos na mesma época em que Anne e eu estávamos fazendo pesquisas e conduzindo entrevistas para essas duas coleções de gay manga, eu comecei a dirigir uma web série chamada Rad Queers. Cada episódio focava em diferentes artistas e ativistas, incluindo o artista transgênero Edie Fake, o dramaturgo Ian MacKinnon e o Payasos L.A., um grupo sem fins lucrativos de gays e bissexuais latinos de L.A. que se vestem como palhaços (palhaços de couro sexys, não o tipo assustador que você encontra em festas infantis) e levantam fundos para causas beneficentes.

Meu mais recente documentário se chama The House of Gay Art. Ele explora o mundo do arquivo titular de Gay Art nos subúrbios de Tóquio. É uma das únicas instituições japonesas que coleciona Gay Art, e é mantida fora do modesto apartamento do curador e escritor Masahiro Ogizaki. Ele dorme cercado por centenas de pinturas, ilustrações, livros e revistas - é como uma mini Biblioteca de Alexandria para Gay Art japonesa, e ele é a única pessoa com paixão para continuá-la. Eu gostaria de continuar explorando o arquivo de Ogizaki-san no filme.


Além de juntar dinheiro através do Kickstarter para o documentário Queer Japan, você também recebeu uma concessão para esse projeto! Quem fez essa concessão, qual foi o valor e o que ela tornou possível até aqui?

Sim, é bem louco! Eu recebi uma bolsa de intercâmbio como Artista Criativo através da Comissão de Amizade Japão-EUA, um programa coordenado pelo National Endowment for the A.R.T.S. (NEA), a Agência de Assuntos Culturais do Japão (Bunkacho) e a Casa Internacional do Japão (I-House).

O programa de residência escolhe anualmente 5 artistas dos Estados Unidos para morar no Japão de 3 a 5 meses, aprender sobre a cultura japonesa e trabalhar ao lado de artistas locais. A concessão vale $28.000, que vai cobrir minha moradia, sustento e gastos profissionais pelos cinco meses que estivermos gravando. O resto da quantia que estamos levantando no Kickstarter será direcionada para os membros da equipe, custo das viagens para gravar em diferentes locais no Japão, equipamento de produção, trilha sonora e as publicações impressas que suplementarão o documentário.

Eu adorei os trechos de entrevista que você mostrou na prévia do Kickstarter. Como você encontrou e selecionou as outras pessoas que entrevistou até aqui? Quais fatores foram utilizados na seleção delas?

Eu recebi uma assistência incalculável dos meus contatos na I-House, Sawako Nakayasu e Manami Maeda, que têm me dado um apoio incrível com relação ao meu processo e me colocaram em contato com a verdadeiramente divina drag queen e artista, Vivienne Sato. O dançarino de Butoh, Atsushi Matsuda, é uma pessoa que me ofereceu um grande apoio com relação ao MASSIVE GOODS, e eu o conheci em uma festa que organizamos em Tóquio em 2014.

Encaixei Masaki C. Matsumoto no projeto depois de ler os escritos dele sobre questões queer e a maravilhosa página do Twitter, QueerESL, que ajuda a ensinar inglês para falantes de japonês através da teoria radical queer. Também descobri a artista Nogi Sumiko depois que ela participou do grande projeto fotográfico "Out in Japan", organizado por Gon Matsunaka e o fotógrafo Leslie Kee. Me senti fortemente atraído pela sensibilidade artística de Nogi-chan. Anne e eu estivemos trabalhando com Rokudenashiko nesse último ano, adaptando o mangá de memórias dela "What Is Obscenity?" em inglês (chega em maio pela Koyama Press!). A inclusão dela me pareceu natural como um caminho para examinar como o sexismo e a misoginia institucional se interseccionam com as questões queer.

Você tem uma lista de pessoas que entrevistará nos próximos meses? Você pode me falar um pouquinho mais sobre elas ou me dar algumas dicas sobre o espectro de pessoas que entrevistará?

Além das pessoas que já entrevistamos, eu tenho mais umas dúzias de indivíduos que entrei em contato e/ou gostaria de envolver no projeto, mas não posso confirmar a participação de ninguém que já não esteja no trailer nesse momento. A lista continuará se expandindo conforme passarmos mais tempo gravando e conhecendo pessoas novas. É importante pra mim que a esfera do filme inclua indivíduos de todas as idades, backgrounds e experiências: gays e lésbicas, trans e cis, não-binários, intersexuais, bissexuais, e pessoas que sentem que esses termos não são o suficiente para descrever o gênero e a sexualidade delas. Há também identidades especificamente japonesas como X-Gender e New Half que eu gostaria de explorar no filme.

Nunca havia ouvido falar sobre X-Gender e New Half. Você poderia me explicar o que esses termos significam e por que eles são identidades unicamente japonesas?

X-Gender (x-jendaa) é uma identidade de gênero utilizada por pessoas que não se identificam nem como homem nem como mulher. Não é diferente dos termos em inglês como "não-binário" e "gender queer", no sentido em que rejeita a dicotomia masculina/feminina implicada por termos como "MTF" e "FTM", que são comumente utilizados (junto com "GID" - Gender Identify Disorder) nos círculos trans japoneses. Pessoas X-Gender não são nem F ou M, mas sim X. O termo teve origem na região de Kansai e se tornou popular online e na mídia no final da década de 90. As pessoas X-Gender às vezes se identificam como FTX, MTX ou XTX.

New Half (nyuuhafu) é um termo controverso porém popular para mulheres trans que muitos consideram problemático. O rótulo teve origem no bar gay Betty's Mayonnaise, em Osaka. Em 1982 (uma época em que a cirurgia de redesignação de gênero era ilegal no Japão), a proprietária trans Betty despachou o termo, que é um trocadilho com a palavra para raças misturadas que os japoneses usam, "hafu", para se referir às entertainers (cantoras, dançarinas etc) trans que trabalhavam no bar. New Half significa "meio homem e meio mulher" que, como você pode adivinhar, é uma caracterização que muitas pessoas trans veem problema. Apesar disso, New Half continua a ser utilizado na mídia e na cultura de celebridades.


Gengoroh Tagame foi uma escolha óbvia como entrevistado para o Queer Japan, considerando seus contatos e seu papel como um mangaká gay influente, assim como um historiador de arte. Já o vi falar no TCAF e ele sempre tem coisas inteligentes e interessantes para dizer. O seu documentário também entrevistará outros criadores de gay manga ou BL que possam ser de interesse especial para os fãs de animes e mangás?

Sim, espero conseguir entrevistar mangakás de todas as orientações sexuais e gêneros. Há algumas mangakás lésbicas e uma produtiva mangaká intersexual que eu adoraria encaixar no projeto. Estou bastante interessado em explorar a cultura dos BLs e observar como ela se intersecciona com a comunidade gay. Adoraria incluir algumas lojas que fornecem para garotas que amam BL na "Otome Road" em Ikebukuro.

As formas com que as mangakás, começando pelo Year 24 Group, têm utilizado o gênero shoujo, e o BL em particular, como um caminho para a libertação sexual é fascinante pra mim. BL, em sua melhor forma, é uma ferramenta extremamente útil para desconstruir o patriarcado e a homofobia.

Alguns anos atrás no Tokyo International Comics Festival, Tagame-san me apresentou a uma amiga dele que começou a carreira como mangaká de shoujo antes de ir para o mundo de gay manga sob um nome artístico masculino. Ela é alguém que eu adoraria incluir no filme.

Você vai tocar no assunto de Boys Love (BL) e mangás Yuri e os animes e seu papel na cultura popular japonesa até o ponto em que eles impactaram as percepções e/ou más percepções das pessoas sobre a vida dos gays no Japão?

Eu certamente espero trabalhar com esses temas naturalmente, incluindo mangakás que estejam interessados em compartilhar suas histórias. Enquanto certamente seria possível fazer um filme focando inteiramente na queerness dos mangás e animes, esse seria um projeto separado. Seria estúpido fazer um filme somente sobre mangás sem colocar uma grande quantidade de boa animação, mas isso requereria uma quantia maior de dinheiro e um tipo diferente de produção.

Se você considerasse apenas mangás e animes, kabukis e atrizes de Takarazuka, você quase assumiria que o Japão é um paraíso gay - que gender-bending e relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo são bem normais e aceitos. Mas na realidade, em comparação com os Estados Unidos ou com a Europa, a cultura gay no Japão aparenta ser comparativamente underground. Você poderia, talvez, falar sobre como e por que as coisas são assim - sobre o que os fãs ocidentais deveriam saber com relação aos desafios que as pessoas LGBTQs do Japão encaram que podem não ser óbvios para as pessoas de culturas ocidentais?

Essa é uma grande pergunta! Vou começar qualificando que eu procuro evitar comparações binárias como Japão vs. Ocidente ou Japão vs. EUA, porque é fácil começar a fazer afirmações grosseiras - e os limites entre essas categorias são menos estáveis do que parecem ser. Apesar disso, essas são comparações que inevitavelmente serão feitas, e é fácil para que as pessoas criem uma imagem muito simplificada das questões LGBTQs nos dois lados da moeda.

Se você for olhar para as tradições teatrais de gender-bending como kabuki e grupos como o Takarazuka Revue, ou precedentes históricos como a grande quantidade de representações de nanshoku (desejo entre homens) no período de Edo na literatura e na arte, você pode ter essa imagem excessivamente bonitinha do Japão como um "refúgio" para pessoas queer. Pode ser verdade que tipos bem específicos de relacionamentos entre homens (e certamente não relacionamentos lésbicos) eram aceitos na antiguidade japonesa, mas é importante notar que depois que as portas do Japão foram abertas à força para o Ocidente na Restauração Meiji, a tradição foi tida como parte do Japão "não civilizado" e jogada para debaixo do tapete.

Conceitos médico-científicos de sexualidade importados da Alemanha e de outros lugares se tornaram populares no começo do século XX, e termos como homo foram substituídos por nanshoku. Depois da Guerra do Pacífico, a cultura gay floresceu no Japão em jeitos únicos. Bares gays começaram a aparecer nas grandes cidades, e seus funcionários gender-bender, apelidados como gei boi (garotos gays) foram bastante divulgados na imprensa ao longo da década de 50, uma época em que a palavra "gay" ainda tinha que sequer entrar na consciência popular dos Estados Unidos. As hentai zasshi (revistas pornográficas) apresentavam uma variedade de minorias sexuais ao lado umas das outras: gays, lésbicas, travestis e erotismo BDSM podiam coexistir na mesma revista. Uma variedade de comunidades queer foi formada e evoluiu ao longo do final do século XX, mas não houve nenhum grande movimento pelos direitos LGBTs em paralelo com os dos Estados Unidos nas décadas de 60 e 70. No geral, a sexualidade segue como uma parte da vida privada das pessoas no Japão. Não é incomum que as pessoas tenham uma vida queer relativamente aberta que eles, no entanto, jamais mencionariam no trabalho ou com sua família.

Isso não quer dizer que pessoas queer vivam em uma coexistência acolhedora com a sociedade hétero no Japão. De acordo com o grupo sem fins lucrativos Nijiro Diversity, 70% das minorias sexuais sofreram bullying na escola. Menos de 19% das maiores corporações japonesas oferecem políticas não discriminatórias para funcionários LGBT (em comparação, por exemplo, com mais de 95% das maiores corporações presentes no ranking da Fortune 500 dos EUA). Não há nenhuma lei nacional e bem poucas leis locais de antidiscriminação que impeçam discriminação de moradia e financeira contra pessoas LGBTQs. Então, embora haja alguns cenários queer robustos e inspiradores no Japão contemporâneo, as pessoas queer ainda enfrentam uma grande discriminação institucional.

As coisas estão mudando agora? Parece que a cultura LGBTQ tem estado mais nos noticiários japoneses recentemente do que jamais tiveram.

Sim, nos últimos anos a atenção com relação aos assuntos LGBTQ aumentou na mídia japonesa. O casamento entre pessoas do mesmo sexo entrou na conversação nacional e, em 2015, vários conselhos começaram a apresentar certificados de união estável, que poderiam ser um passo em direção ao casamento igualitário. Esse movimento teve início em Shibuya, seguido pelo conselho de Setagaya e mais recentemente por Iga e Takarazuka, o local de nascimento do Takarazuka Revue. Além desses gestos em direção ao casamento igualitário, no entanto, o Japão não possui nenhuma política séria para a proteção de pessoas LGBTQ.

A parada LGBT de Tóquio existe de várias formas desde 1994. Nogi Sumiko me contou uma anedota reveladora sobre como a mídia cobriu a primeira parada LGBT. Mostrando a filmagem de participantes comemorando, o apresentador comentou sem remorso algum "bem, isso foi nojento". Nogi mencionou que esse mesmo repórter agora é frequentemente visto nas câmeras curtindo passar um tempo com "onee" (talentos drag queen da TV). Ano passado, a esposa mais liberal do primeiro ministro conservador Shinzo Abe, Akie Abe, fez história ao aparecer na Tokyo Rainbow Pride, ao lado de Hiroshi Hasegawa. Portanto, a percepção dos movimentos do orgulho LGBT parece ter mudado significativamente em apenas duas décadas.

Na América do Norte, a cultura gay se tornou mais visível e menos subcultural/underground, mas levou várias décadas para conseguir aceitação e a relativa normalidade social que você vê hoje. Tendo dito isso, há uma quantidade significativa de resistência contra os direitos LGBTQs que você vê hoje vindo de cristãos conservadores. No Japão, o Cristianismo não é uma grande força cultural ou política como é na América do Norte. Considerando isso, que fatores fazem com que "sair do armário" no Japão seja difícil?

É interessante - de algumas maneiras, estar em um país não cristão fez com que fosse mais fácil para que pessoas queer no Japão se dessem bem sem serem incomodadas por ignorantes. Ao mesmo tempo, a homofobia existe em um nível mais implícito do que em países como os Estados Unidos e a Inglaterra, onde a retórica religiosa antiqueer é predominante no discurso público e político.

Em seu grande livro Contact Moments: The Politics of Intercultural Desire in Japanese Male-Queer Cultures, Katsuhiko Suganuma discute as tentativas do grupo ativista seminal OCCUR de desmantelar a discriminação sancionada pelo Estado no Japão ao expor a quieta (otonashii) natureza da homofobia no Japão. Desde que a cultura queer não demonstre ser uma ameaça à cultura heteronormativa, ela será "tolerada" até um certo ponto. E quando ela aparenta ser "intolerável", a homofobia otonashii desperta e implanta uma defesa cínica contra uma força desconstrutivista. Sob essas circunstâncias, a homofobia otonashii continua sua pretensão de ser "tolerante" com a cultura homossexual, mas cumpre seu papel de condená-la de uma maneira implícita.

Como uma nação não cristã, também há questões separadas que impedem o casamento entre pessoas do mesmo sexo de ganhar tração no Japão. Foi isso que o Hiroshi Hasegawa disse sobre esse assunto na nossa entrevista: "[No movimento pelos direitos LGBTQs no Japão], todo mundo estava tentando copiar o ativismo gay dos Estados Unidos e da Europa. Quando diz respeito sobre o casamento gay - No Ocidente, em culturas cristãs, Deus impõe que o casamento seja baseado em uma relação entre um homem e uma mulher sob um contrato igualitário. Na sociedade japonesa, no entanto, o casamento é a união de ancestrais e famílias. É uma questão familiar. Acredito que seja parecido na China. Casamento não é uma união de indivíduos, mas sim uma união entre famílias, portanto a estrutura de casamento é bem diferente da ocidental."

Não estou familiarizada com outros documentários sobre a cultura queer no Japão - mas houve outros filmes sobre esse assunto?

Shinjuku Boys é um ótimo filme de 1995 que foca na vida de três homens transgêneros em Tóquio. Heart TV é uma série de documentários atual, que passa no canal de televisão japonês NHK, e discute questões queer. O diretor Hikaru Toda (do excelente Love Hotel, 2014) está atualmente gravando um documentário chamado Lawyers sobre Masafumi Yoshida e seu parceiro (no direito e no amor) Kazuyuki, que também está na equipe de advogados de Rokudenashiko. Kazu é um dos vários advogados defendendo Rokudenashiko contra acusações de obscenidade que têm origem em sua prisão infame por fazer uma vagina 3D em forma de caiaque.

Não é um documentário tradicional de forma alguma, mas Funeral Parade of Roses (1969) de Toshio Matsumoto é muito importante pra mim. Ele combina a narrativa de contar histórias com entrevistas de documentários e sequências experimentais surreais de contar a história de várias gei boi que se apresentam como mulheres vivendo suas vidas abertamente enquanto trabalham em um bar gay de Shinjuku.

Me diga qual a sua visão sobre o seu documentário! Quais os temas ou ideias você espera explorar com o Queer Japan?

Eu quero que esse filme dê voz às experiências do dia a dia de pessoas queer sem usar do sensacionalismo. Quero conhecer pessoas que são exemplos vivos de resistência ao patriarcado e desmantelar a heteronormatividade, mas também aquelas que estão bravamente vivendo suas vidas de um jeito honesto e ousado. Particularmente, enquanto continuo a aprender a língua japonesa, o tema da linguagem em si tem emergido, e como ele molda a formação da identidade.

O que torna o seu projeto de filme único, especial e/ou no tempo certo?

Eu acho que o que torna esse filme único é que ele não é um documentário baseado em um problema - é uma série de estudos de caráter. Estou me propondo a produzir retratos de indivíduos fascinantes e discutir questões sociais conforme elas surgem naturalmente, já que são pertinentes a experiências vividas. Dessa forma, eu espero fazer um filme com subjetividades múltiplas e não só um pedaço de jornalismo com uma mensagem singular.

O Japão se encontra em um momento fascinante política e historicamente falando, abraçando grandes questões e conflitos generalizados enquanto se ajusta ao século XXI. Portanto, eu acho que "estar no tempo certo" se encaixará no filme naturalmente.

Qual vai ser a duração do filme? Uma hora ou mais?

Pelo menos 90 minutos - mas a esfera ainda está se expandindo, então ele pode acabar sendo meio épico!

Você está esperando pelo lançamento em um festival de filmes/cinema eventualmente?

Sim! A minha esperança é que o Queer Japan vá ao ar em festivais de filmes em 2017. Depois disso, um lançamento nos cinemas seria incrível.

Quando pretende tê-lo completo?

Posso estar sendo excessivamente otimista com relação a isso, mas espero terminar de editá-lo lá por Outubro de 2016.

Mais alguma coisa que você gostaria de acrescentar ou dizer para encorajar as pessoas a apoiarem esse projeto?

Tenho orgulho de dizer que o Queer Japan é uma produção inteiramente independente, livre de censuras comerciais do cinema de Hollywood. Estamos contando com a palavra e a generosidade de indivíduos doadores para ajudar a tornar esse projeto uma realidade. Se algum dos sujeitos do trailer chamar sua atenção, por favor, participe e doe para que possamos continuar contando suas histórias e muitas outras sobre a comunidade queer no Japão.

Além de trabalhar no documentário Queer Japan, você e a Anne também trabalham como editores para conseguir publicar gay manga em inglês. Espero e assumo que Massive tenha vendido bem para a Fantagraphics. Há um segundo volume da antologia de Massive sendo produzido? Ou vocês dois estão trabalhando em outros títulos que possamos ficar ansiosos para ver em 2016-2017?

Massive foi um grande projeto com diferentes partes, que levou dois anos para ficar completamente pronto, e eu não poderia ficar mais feliz com os resultados. O sucesso dele em minha mente atingiu nossa meta inicial de apresentar uma variedade de mangakás gays para nossos leitores de inglês, abrindo um caminho para que volumes completos de seus trabalhos pudessem ser publicados.

Em vez de repetir o processo e fazer uma sequência direta, Anne e eu estamos trabalhando com o editor Bruno Gmunder para lançar livros únicos pelos mangakás inclusos na antologia de Massive e além. Eles já colocaram trabalhos de Tagame, Seizoh Ebisubashi, Takeshi Matsu e Mentaiko Itto, e expansões estão sendo impressas, uma edição de capa dura de The Passion of Gengoroh Tagame no final desse ano!

Essa é uma ótima notícia! Sei que a PictureBox publicou uma edição de brochura de The Passion of Gengoroh Tagame em 2013, mas já que eles praticamente se distanciaram da publicação de novels com conteúdo adulto, aquela edição saiu de linha. É ótimo ouvir que ela será relançada com um material adicional. O que mais podemos esperar para ver sobre Massive nos próximos meses?

Nosso mais recente projeto é o mangá de memórias de Rokudenashiko, "What is Obscenity?", lançado em maio. Conta tudo sobre a prisão da mangaká em julho de 2015 pela "distribuição digital de obscenidade", decorrente de um arquivo 3D com a vagina dela que foi utilizado para criar o primeiro manko (vagina) caiaque do mundo. 'Nashiko tem ido à corte nesses últimos meses lutar contra acusações de obscenidade pela sua segunda prisão.

Espero que ela consiga se unir a nós no Toronto Comic Arts Festival em maio de 2016, mas não saberemos do veredito do caso dela até o começo de maio. Esperamos que, independentemente do resultado, a prisão dela não afete sua habilidade de viajar internacionalmente.

Espero que não também. Estou ansiosa para conhecê-la no TCAF. Nossa, há muitas coisas acontecendo com Massive, então muito obrigada por separar esse tempo para responder minhas perguntas, e parabéns pelo forte lançamento da sua campanha no Kickstarter. Espero que você atinja sua meta!

Obrigado pelo apoio!

* Em inglês, "gay" pode servir tanto para meninos como para meninas. Inicialmente eu acredito que estavam falando especificamente de Yaoi, porém o Yuri é mencionado posteriormente, então como não tenho certeza de qual é qual, vou deixar o termo original como uma forma mais abrangente.