Vamos Problematizar? | A falta de protagonismo feminino no mundo dos animes

A ausência do protagonismo feminino é algo que atinge não somente o universo dos animes, mas também dos filmes, séries e livros no geral. Para que vocês tenham uma ideia do quão evidente é a falta de representatividade das mulheres na indústria do entretenimento, basta que façam um rápido teste criado em 1985 pela cartunista Alison Bechdel (posteriormente conhecido como teste de Bechdel) que consiste na seguinte análise:

Quantas obras (animes/filmes/séries/livros) vocês conseguem citar dentro de 1 minuto que tenham

a) no mínimo duas mulheres com nomes; 
b) as mulheres conversam uma com a outra; 
c) sobre alguma coisa que não seja um homem. 

É difícil, não? Principalmente se excluirmos as obras que obviamente têm o público feminino como alvo.

Vejam bem, nós sabemos que assim como os filmes, as séries e os livros, os animes também têm suas demografias, ou seja, títulos que são direcionados a um público específico (shoujo para meninas adolescentes, shounen para meninos adolescentes, josei para mulheres adultas, seinen para homens adultos, são alguns exemplos). Mas no fim das contas, elas apenas servem para garantir que o material venda para aquele público específico. Da mesma forma que cores e brinquedos não têm gênero masculino/feminino (meninas podem gostar de azul e meninos podem gostar de rosa, assim como meninas podem gostar de carrinhos e meninos podem gostar de bonecas), os animes e mangás também não têm: uma menina pode gostar de shounen/seinen e um menino pode gostar de shoujo/josei. Portanto, o que queremos discutir aqui é a falta de representatividade feminina em todos os gêneros (ação, ficção científica, mistério, mecha, etc).

É muito comum encontrar o protagonismo feminino em animes shoujo, pois geralmente eles envolvem o padrão daquilo que é considerado "coisa de menina". Por exemplo, se você for olhar os 10 títulos de animes shoujo mais populares do MyAnimeList, você vai encontrar:

Ouran Koukou Host Club
Kaichou wa Maid-sama!
Tonari no Kaibutsu-kun
Kimi ni Todoke
Vampire Knight
Fruits Basket
Lovely★Complex
Sukitte Ii na yo.
Ao Haru Ride
Vampire Knight Guilty

O que todos eles têm em comum? Romance. Mas não é só isso: geralmente estão inseridos num contexto escolar, slice of life, dentro da normalidade do dia a dia (com exceção de Vampire Knight). Agora, se formos olhar os 10 títulos de animes shounen mais populares, vamos encontrar:

Shingeki no Kyojin
Fullmetal Alchemist: Brotherhood
Naruto
Bleach
Mirai Nikki (TV)
Fullmetal Alchemist
Soul Eater
Fairy Tail
Ao no Exorcist
Naruto: Shippuuden

A variação de gêneros dentro dessa demografia é muito maior: encontramos ação, superpoderes, magia, mistério, fantasia, sobrenatural; lutas envolvendo titãs, demônios, ninjas... Tem tudo que é tipo de coisa. 

A partir dessa comparação, o que podemos assumir? Falando a grosso modo, é aquela visão perpetuada em nossa sociedade de que as meninas devem sonhar em encontrar o seu príncipe encantado, enquanto os meninos podem ser aquilo que quiserem (um ninja, um exorcista, um mago, o que for, nesse caso). Se levarmos em consideração o conservadorismo da sociedade japonesa, essa questão fica ainda mais evidente.

Não estou querendo dizer que não existam shoujos que abranjam outros gêneros ou shounens que não possuam um certo foco em romance, pois eles existem, mas não são tão comuns assim. Eu consigo pensar, por exemplo, em três shoujos que fujam do padrão escolar: Nana, Akatsuki no Yona e Akagami no Shirayuki-hime. Entretanto, eles não escapam do romance, embora eu considere as três obras até bastante representativas por possuírem protagonistas que buscam o amadurecimento e a independência, sem exercerem o típico papel da princesa que precisa ser eternamente salva pelo seu príncipe. Encontrar shounens com um certo foco em romance, por outro lado, já é mais difícil, mas acredito que daria pra citar três exemplos também: Shigatsu wa Kimi no Uso, Gekkan Shoujo Nozaki-kun e Bakuman. Nesses três casos, porém, não temos ação, ficção científica, mistério, robôs (as "coisas de menino")... Diria que é um público mais meio a meio do que shounen realmente. Mas sim, eles existem, só que estão longe de ser uma parcela expressiva para dizermos que não falta o tipo de representatividade que estou me propondo a discutir.

Eu sei que em todos esses títulos citados é possível encontrar personagens que são meninas e personagens que são meninos. Contudo, observem os protagonistas. Por que no shoujo só temos protagonistas femininas e no shounen protagonistas masculinos? (Sim, tem uma briga por causa disso dentro do fandom de Fairy Tail, Lucy x Natsu, mas mesmo que consideremos Lucy a protagonista, ainda é só uma). Responderão que é por causa do público alvo das demografias. Certo, mas aqui eu me refiro aos gêneros que acompanham os shoujos e os shounens. Visualizem, nesse momento, como o senso comum do que seria o shoujo (coisas fofas) e do que seria o shounen (porradaria), por exemplo.

Se o foco de uma obra não for romance, é dificílimo encontrarmos uma protagonista feminina. De títulos que sejam minimamente famosos, eu só consigo pensar em dois: Chihayafuru (mas ainda é um josei!) e Psycho-Pass. É possível que haja outros papéis principais exercidos por mulheres, mas o central quase nunca pertence a uma. Por quê? Por que é tão difícil retratarem mulheres que estejam em uma posição de poder? E mesmo que elas estejam em um papel principal, ainda estão a serviço do protagonista. Por exemplo: Mikasa quer proteger o Eren. Riza vive em função do Roy. Yuno quer proteger o Yuki. Percebem? Por que tudo tem que girar em torno dos homens? Por que não podemos ter mulheres fortes, guerreiras, que não dependam ou vivam em função de homens como protagonistas?

Sempre que eu encontro uma personagem que possua as características que citei acima, ela é secundária. Eu poderia até abrir uma exceção pra Erza, mas todos sabem como o Mashima trabalha com ela quando o assunto diz respeito ao Jellal. Eu tenho a impressão de que ter uma mulher assim, numa posição de poder, sendo o foco de uma trama, é algo que incomoda. Parece que não querem aceitar mulheres empoderadas. Não querem ver mulheres como protagonistas de grandes histórias de ação, mistério, ficção científica. Nossa representatividade é praticamente inexistente nesses gêneros.

Além disso, mesmo quando o protagonismo tem tudo para ser de uma mulher, ele acaba sendo roubado. Por exemplo, quando você lê o título "Akame ga Kill!", você pensa que a protagonista seria a Akame, né? Mas não: é o Tatsumi. Quando você vê pôsteres de Black Lagoon, você imagina que a protagonista seria a Revy, certo? Mas não: é o Rock.

Sem contar que muitas vezes personagens femininas maravilhosas são estragadas por causa de interesses românticos em personagens masculinos. Eu não superei até hoje o que fizeram com a Hakaze de Zetsuen no Tempest, por exemplo. Personagens femininas de harém também são um desperdício total muitas vezes, tipo a Sayaka de Strike the Blood. Era uma personagem bacana, mas o desenvolvimento foi jogado fora depois que ela se apaixonou pelo Kojou.

E ainda tem os animes de esporte! Com exceção de Chihayafuru (e ainda é misto!) que já falei, quantos títulos famosos de animes de esporte com times femininos vocês conhecem? Por que existe essa noção de que times masculinos são mais interessantes do que times femininos? Por que essa ideia de que homens jogam melhor? Por que uma trama com times masculinos seria mais interessante e mais emocionante do que uma com times femininos? Por que sempre homens? 

O preconceito, sobretudo com o futebol feminino, ainda é gigantesco. É tanto que não existe o menor esforço e investimento aqui no Brasil, por exemplo. Ano passado tivemos a Copa do Mundo de Futebol Feminino. Quantos de vocês acompanharam? Quantos de vocês não foram estudar/trabalhar no dia que teve jogo do Brasil? Quantos de vocês sequer sabiam que aconteceu? 

Percebam, a desvalorização é enorme. Quando a EA Sports anunciou que haveria seleções femininas no novo FIFA, há um ano, houve uma chuva de comentários machistas, dizendo que "futebol era coisa de homem" e que não tinha nada que ter seleções femininas no jogo. Abaixo vocês podem conferir alguns comentários que encontrei agora numa pesquisa rápida pelas notícias que saíram na época:




Porque, obviamente, quando se trata da inclusão feminina em qualquer tipo de ambiente ou de conceder direitos às mulheres, sempre há "coisas mais importantes para se fazer/discutir/preocupar". Porque, é claro, mulheres são burras e não entendem de futebol (vide a "incapacidade" de entender a regra do impedimento). Desvalorização do futebol feminino? Check.

Tudo isso reflete nos animes também. Kuroko no Basket, Haikyuu!!, Diamond no Ace, Free!, Yowamushi Pedal... As meninas sempre recebem um único papel: manager. Sim, Kuroko no Basket tinha a Alex e a Masako. Haikyuu!! tinha o time das meninas. Mas qual o tamanho da relevância dessas personagens quando comparadas a toda a história?

Ademais, estamos cientes de que há alguns animes de esporte com times femininos que foram produzidos, mas a quantidade de títulos é escassa e muitas vezes eles são difíceis de encontrar. Eles também não chegam nem perto da qualidade dos títulos mais populares (todos com times masculinos) e, enquanto você pode encontrar títulos com times masculinos de diversos esportes, com times femininos a variedade é minúscula.

Honestamente, como mulher, me sinto decepcionada e muito mal representada (ainda mais na questão dos esportes, tendo em vista que já pratiquei handebol na época de escola e também já fui acompanhante assídua de futebol por alguns anos, enquanto tinha tempo de sobra). Para quem é homem, essa discussão pode até parecer uma besteira, afinal de contas, vocês são representados em absolutamente todos os lugares, em todas as mídias, podendo ser qualquer coisa. Nós não.

Com tudo isso eu não estou querendo dizer que as obras que têm protagonistas masculinos são ruins. Muito pelo contrário, eles são os protagonistas dos meus animes preferidos (com exceção de Psycho-Pass), inclusive até já recomendei Haikyuu!! aqui. A questão é que essas obras poderiam ser igualmente boas com protagonistas femininas, considerando que o que diz se uma obra é boa ou não, é todo o conjunto que a forma. Haveria uma única diferença: nesse caso, estariam contribuindo com a representatividade das mulheres, que é um fator muito importante.

Eu também sei que existe uma questão cultural envolvida. No Japão, é difícil até para as mulheres conseguirem publicar mangás que fujam das demografias que esperam que elas publiquem (vide Hiromu Arakawa, criadora de um dos melhores mangás shounen de todos os tempos, Fullmetal Alchemist, que teve que modificar o seu nome para colocá-lo em suas publicações). Sabem por que a Arakawa fez isso? Porque muita gente deixaria de ler o mangá dela se soubessem que era feito por uma mulher. Parece familiar? Pois é, J. K. Rowling, autora da saga mundialmente reconhecida de Harry Potter, teve que abreviar o seu nome pelo mesmo motivo.

Existe uma espécie de consenso entre os fãs de anime que Fullmetal Alchemist é o melhor shounen de todos. Fullmetal Alchemist: Brotherhood (a adaptação em anime mais fiel ao mangá) estreou em 2009 e acabou de ser televisionada na metade de 2010, e até pouquíssimo tempo atrás (cerca de um ou dois meses) estava em primeiro lugar na lista geral de melhores animes do MyAnimeList, com mais de 670 mil membros. Ele só cedeu o lugar para Gintama que, por sua vez, ainda está no ar e só possui cerca de 87 mil membros. Vocês conseguem imaginar que teria gente que deixaria de ler/assistir essa obra tão incrível que é Fullmetal Alchemist simplesmente pelo fato da criadora dela ser uma mulher? E que a mesma coisa aconteceria com fucking Harry Potter?

Na minha opinião, o melhor shounen realmente é FMA, que logo depois é seguido por Magi: The Labyrinth of Magic de Ohtaka Shinobu, meu mangá preferido. Eu fico feliz que os dois melhores shounens para mim sejam criados por mulheres (e eu nem sabia disso na época que comecei nenhum dos dois), mas eles são exceções, e infelizmente não fogem dos problemas que discuti acima (ausência de protagonismo feminino, personagens femininas que vivem em função de um homem, etc). O machismo, sobretudo no Japão, ainda é muito forte. Mesmo que Arakawa ou Ohtaka desejassem fazer histórias com protagonistas femininas, elas não venderiam ou seriam reconhecidas tão bem quanto foram, portanto essa limitação ainda existe e não muda pelo fato de elas serem mulheres.

Se formos observar os sucessos de cinema mais recentes, até que o Ocidente tem progredido mais rápido no que diz respeito ao protagonismo feminino (Hunger Games, Star Wars), mas obviamente nem todo mundo recepcionou isso de uma boa forma (comentários de machistas são o que não falta), e ainda é pouco, muito pouco. Vamos continuar exigindo que abram espaço para as mulheres, para que possamos trabalhar com o que quisermos (seja como mangaká ou como diretora de cinema),  para que encontremos a nossa representatividade no material de entretenimento que consumimos.

Chamem-nos de feministas chatas, de feminazis, do que quiserem. Não vamos mais nos contentar com conteúdos que tratem apenas de romance como se isso fosse tudo para uma mulher, não vamos permitir que a retratação dos nossos corpos seja apenas uma ferramenta para vender mais, não vamos nos contentar em sermos representadas somente como personagens secundárias ou que vivam pelo interesse em um homem ou por um homem. Nós vamos lutar, nós vamos incomodar, nós vamos conquistar.

Eu quero mulheres fortes, independentes, guerreiras. Magas, ninjas, exorcistas, pilotas de mechas. Espiãs, agentes secretas, generais das forças armadas. Quero ver médicas, advogadas, empresárias, CEOs, presidentes, primeiras-ministras. Quero ver a valorização das mulheres no esporte. Quero ver as mulheres recebendo o respeito e a atenção que merecem.

Não vamos parar. 

KATREQUE. Demografia e gênero – Qual a diferença?. Amefuri. Disponível em: <http://www.amefuriblog.com.br/?p=6> Acesso em: 06 jun. 2016.

LOBO, Felipe. Seleções femininas e times do Brasileirão são incluídos no Fifa 16. Trivela. Disponível em: <http://trivela.uol.com.br/a-unica-noticia-positiva-da-fifa-vem-do-videogame-selecoes-femininas-estao-incluidas-no-fifa-16/> Acesso em: 06 jun. 2016.

O TESTE de Bechdel. Uma feminista cansada. Disponível em: <http://www.feministacansada.com/post/27067714292> Acesso em: 06 jun. 2016