Vamos problematizar? | Romantização de relacionamentos abusivos em animes

Primeiramente, sejam todos bem-vindos ao Rukh no Teikoku! Pensei muito sobre qual poderia ser o tema da nossa primeira postagem, e acabei decidindo falar sobre algo que vem me incomodando nesses últimos tempos: a romantização de relacionamentos abusivos nos animes que assisto. 

Eu não costumava reparar muito nesse tipo de coisa antes de me envolver com o movimento feminista, mas desde que o descobri, venho repensando algumas atitudes minhas assim como analisando mais profundamente as coisas que gosto, sejam elas obras de animes, mangás, livros, filmes, letras de músicas, entre tantas outras. Aprender sobre esse movimento foi algo que transformou a minha vida, pois pude abrir os meus olhos para as coisas erradas que existem na nossa sociedade e muitas vezes sequer percebemos, tamanha é a internalização, romantização, construção de pré-conceitos aos quais fomos submetidos ao longo da nossa criação e desenvolvimento como seres humanos. 

Bem, com os animes não foi diferente: tem muita coisa romantizada que passa despercebida pelos olhares menos críticos (como passaram pelos meus antes de estudar sobre) e que precisam ser apontadas para que outras pessoas também possam refletir e dissertar sobre o assunto, de modo que possamos, aos poucos, mudar o ambiente problemático que vivemos. Você pode pensar que alguns comportamentos são normais, inofensivos, mas quando realmente tira um momento para analisar a origem deles, você percebe que eles não são normais e muito menos inofensivos - e é isso que me proponho a fazer aqui. Convido você, leitor, a acompanhar e considerar meus apontamentos, refletindo sobre o que tem assistido para que no final da postagem estejamos abertos a discutir sobre a questão que temos em mãos.


O verbo romantizar, de acordo com o dicionário, significa "descrever ou conceber (algo) de modo imaginoso, fantasioso". A romantização de algo, portanto, nada mais é do que mostrá-lo como uma coisa bonita, legal, inofensiva, normal, ou qualquer adjetivo nesse sentido, quando na verdade ela não é. Romantizar um relacionamento abusivo significa dizer que não há problemas na relação, quando na realidade há alguém sendo controlado, submetido, humilhado, sofrendo, mesmo que isso não seja exatamente visível aos olhos dos outros.

Vamos trabalhar com dois exemplos de relacionamento abusivo nos animes. O primeiro será a relação entre os personagens de Mirai Nikki, Gasai Yuno e Amano Yukiteru, e o segundo será a relação entre os personagens de Ookami Shoujo to Kuro Ouji, Shinohara Erika e Sata Kyouya.

Mirai Nikki
Episódios: 26
Sinopse (animalog): Yukiteru é um garoto que poderia ser considerado estranho. Com dificuldades de fazer amigos, para ele a vida não passa de um grande reality show, onde ele é mais um espectador. Tudo que ele vê, resolve anotar em seu celular fazendo dele seu diário. Mais estranhas ainda são as atitudes do garoto, que imagina dentro de seus pensamentos um Deus dominador de tempo e espaço. Mas não era realmente uma imaginação… Yukiteru ganha desse Deus o poder de prever o futuro com seu celular, o seu “diário do futuro”. Porém nem tudo é tão bom assim: Yukiteru terá que usar seu poder para sobreviver em um jogo envolvendo perigosos assassinos e psicopatas, cada um com um poder especial em mãos. Todos eles estarão concorrendo para no final de contas serem o sucessor de Deus. Como Yukiteru conseguirá vencer esse jogo? E quem é a misteriosa, apaixonada e perigosa Yuno?

Lendo a sinopse, já temos uma ideia de como esse anime pode ser problemático. A questão não é realmente o fato de envolver assassinos e psicopatas em um jogo de sobrevivência, mas sim os perfis que são traçados e as implicâncias que podem trazer.

Vejo muitas pessoas argumentarem, sempre que se deparam com alguma problematização, que o fato de algo ser fictício significa que ele não é um problema, pois as pessoas não irão reproduzir o comportamento que estão assistindo na vida real. Será? Veja bem, não estou dizendo que vamos todos virar assassinos e psicopatas por causa de uma obra, mas sim que podemos, de fato, levar comportamentos nela contidos adiante.

Gasai Yuno é uma personagem que se classifica como yandere, termo japonês utilizado para descrever uma pessoa que inicialmente aparenta ser gentil e carinhosa, porém posteriormente revela sua obsessão pela pessoa amada e demonstra seu comportamento de natureza destrutiva e violenta. "Yan" vem de yanderu (病んでる), que significa estar doente - nesse caso, mentalmente -, e "dere" vem de deredere (デレデレ), uma onomatopeia para estar apaixonado, ou seja, transforma-se em uma forma de demonstrar afeto.

Yuno é completamente obcecada pelo Yukkii. Ela faria qualquer coisa para tê-lo somente para ela. Mataria e morreria por ele. Não é preciso assistir muitas cenas para perceber que um relacionamento com alguém assim não seria nem um pouco saudável, certo? Certo. E é aqui que está o problema.

Mirai Nikki foi um anime que fez bastante sucesso, pelo menos aqui no Brasil. Por causa desse sucesso, vimos um fenômeno acontecer: centenas de meninas adolescentes se dizendo ser como a Yuno e centenas de meninos adolescentes desejando ter uma namorada como a Yuno. Consegue perceber o problema?

É claro que esses adolescentes não vão sair por aí matando pessoas. Mas é perfeitamente possível traçar alguns perfis que esse comportamento gera dentro de relacionamentos abusivos:

1) Relação de propriedade: uma das partes vê a outra como propriedade dela. "Você vai ser só meu", "você não vai ter outras amigas" etc. Daqui vem o controle sobre a vida do outro, a falta total de privacidade.

2) Ciúme possessivo: essa necessidade de ter controle sobre a vida do outro leva ao famoso ciúme possessivo, que só tende a piorar com o tempo.

3) Isolamento: a parte que está sendo controlada perde o contato com os amigos, até mesmo com a própria família, em função do relacionamento que está vivendo.

Não é abusivo? Num primeiro momento pode parecer bonitinho ter alguém que faria qualquer coisa por você, mas não, na realidade, não é. E o fato de acontecer na ficção não significa que seja ok, e que as pessoas serão sempre capazes de diferenciar uma coisa da outra.

Ookami Shoujo to Kuro Ouji
Episódios: 12
Sinopse (animesfox): Erika Shinohara é uma vaidosa menina de 16 anos que vive se gabando de como ela se dá bem no amor sendo que, na verdade, ela sequer tem namorado. Sua mais recente mentira é que Kyouya Sata, seu colega de classe, é seu namorado, e para sustentar essa mentira ela precisa convencê-lo a fingir que eles realmente namoram. O problema é que, apesar da carinha de anjo, Kyouya é o rapaz mais sádico e maldoso da face da Terra e ele vai tirar o máximo de proveito de ter Erika na palma de sua mão.

O problema aqui já começa na descrição do Kyouya. O termo "sádico" vem da prática de BDSM, algo que acontece de forma consentida pelas duas partes e que não faz com que uma ou outra se sinta um lixo, como acontece no anime. Kyouya não é sádico, ele é um babaca.

Para ser sincera, eu não consegui assistir esse anime até o final. Meros seis episódios já me mostraram que a essência machista da obra não iria mudar, e a romantização desse relacionamento abusivo como algo fofinho só porque o Kyouya é um cara bonito me enojou de um jeito que não consigo explicar. Mas bem, vamos lá:

1) Para começo de conversa, desde quando ter um namorado é motivo para se gabar? Fica a impressão de que é o namorado que dá valor a pessoa, como se por isso ela fosse mais do que alguém, e como se ela não tivesse valor próprio.

2) Essa obra mostra o típico papel de servidão. Erika tem que fazer tudo o que puder para agradar Kyouya, mesmo que seja humilhante, mesmo que ela se sinta mal com isso, mesmo que ela sequer queira fazer.

3) Erika desenvolve a típica ideia perpetuada em nossa sociedade de que uma mulher pode mudar um homem, motivo pelo qual milhões de mulheres permanecem em relacionamentos abusivos na vida real pois acreditam que "ele me ama, posso mudá-lo", e essa mudança nunca acontece.

4) Aparentemente, há uma "justificativa" de um trauma do passado para Kyouya agir do modo que age e - ah, que bonitinho! - no final ele se torna uma pessoa melhor e fica com a Erika. Mas a questão aqui é: ninguém merece ter que passar por isso, se sacrificar por um relacionamento, não ter um pingo de amor próprio, tudo numa tentativa de "salvar" ou "mudar" alguém. Além disso, o trauma, na verdade, não justifica nada. Não importa o que tenha acontecido com você, por mais que você tenha motivos para agir de uma certa forma, você ainda não tem o direito de tratar outra pessoa feito lixo.

Nem preciso dizer que muita gente achou essa história linda, não é mesmo? "Olha, ele mudou por ela, que lindo!". Sinto muito, mas de lindo essa história não tem nada. É um típico relacionamento abusivo que, infelizmente, tem gente que passa o pano só porque o cara é bonito, e não enxerga a destruição que isso pode causar. Quantas meninas têm problemas de autoestima e permanecem em relacionamentos que as fazem mal porque o abusador as faz acreditar que se não for ele, ninguém vai amá-la, que não tem como ser feliz sem ele, e que assim continuam no ciclo de tentar convencer-se que podem mudá-lo? É absurdo.


Depois de analisar essas duas questões que propus a você, leitor, podemos concluir o seguinte:

• sim, existe romantização de relacionamentos abusivos no mundo dos animes;
• sim, existe reprodução dos comportamentos assistidos na ficção na vida real;
• sim, é preciso repensar e problematizar nossos gostos;
• não, ninguém está isento de reproduzir discursos, comportamentos ou qualquer outra coisa problemática, pois estamos em constante desconstrução.

Enfim, era isso que eu tinha para trazer hoje. Sintam-se livres para concordar, discordar, e comentem para que possamos aprofundar o nosso debate ainda mais.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda; FERREIRA, Marina Baird (Coord.). Míni Aurélio: O dicionário da língua portuguesa. 8. ed. Curitiba: Positivo, 2010.

EISENBEIS, Richard. How to Identify Popular Japanese Character Types. Disponível em <http://kotaku.com/how-to-identify-popular-japanese-character-types-1169085239>. Acesso em: 29 abr. 2016.